segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Pensamento superior, rasa biologia, ou "o oriente sempre fora muito à frente"?

"Sob a influência do teatro Kabuki Eisenstein começou a ver a montagem como uma actividade de fusão ou síntese mental, através da qual pensamentos particulares eram unificados a um nível de pensamento superior, e não como uma série de explosões no interior de um motor de combustão, opinião que antes tivera. Eisenstein estava fascinado pelo uso de convenções, máscaras e vestuário simbólico que caracteriza o teatro do Oriente. Começou a interessar-se pelas ideias dos japoneses sobre composição pictórica. Sob o sortilégio do Oriente, a montagem tornou-se difusa para Eisenstein. Por fim, o teatro japonês sugeriu ao cineasta o conceito de "conjunto monistíco" que cada vez mais começou a dominar o seu pensamento, vindo a culminar nos excessos wagnerianos de que enfermou a sua produção das Valkyrie. O modo como o som e o gesto funcionavam no teatro Kabuki fascinava-o; questão que, aliás, se tornou para ele cada vez mais crucial ao dar-se conta que o filme sonoro seria a forma do futuro. Mais uma vez, bastante dentro ainda da tradição de Meyerhold, reagiu com a ideia de que o filme sonoro significava a supremacia da palavra falada e procurou um modo diferente de combinar as componentes aural e visual do cinema. Eisenstein compreendeu que no teatro Kabuki a linha de um sentido não acompanhava simplesmente um outro, mas que ambos eram inteiramente intermutáveis, elementos inseparáveis de um conjunto monístico."


In: Signos e significação no cinema - Peter Wollen

sábado, fevereiro 07, 2009

Estética MTV

Havia um senhor chamado Danny Boyle que fez uma mágnífica obra prima, "Trainspotting." Havia outro senhor, chamado Fernando Meirelles, que seguiu a toada e fez outra também magnífica obra prima, "A cidade de Deus". Havia ainda outro senhor chamado Cameron Croewe que, apesar de nunca ter feito uma obra prima (Almost famous é um filme giro), copiou uma sob o nome de Vannila Sky.

E o que é que tudo isto tem a ver? Provavelmente nada, dirá o leitor...

Em Cidade de Deus, temos o Gui Boratto e umas batidas tecno, em Vanilla Sky, aquele fabuloso clip do Everything in it's right place e, em Trainspotting, aquela musiqueta dos underwold. Ou seja, parece-me que não é de filmes que falamos, mas de antologias de videoclips.

É certo que a chamada "estética MTV" chegou há muito e estará para ficar ainda mais uns anos. É também certo que, quando a mesma chegou ao cinema, houve algo de inovador, sem dúvida...

Começa a fartar? (pergunta que se vai impondo...)

Falar sobre cinema e sobre a sua definição seria também falar de entretenimento, vector que o cinema não deixa nunca de preencher. Mas só entretenimento? Arte=entretenimento? Cinema é arte?

Não querendo adoptar acepções "quadradas", nem vou sequer perder tempo a responder a estas perguntas... Vou antes falar um bocado sobre "Slumdog Millionaire", que vi ontem:

1º- O Boyle tem um evidente e autoral fetiche por sanitas.
2º- O Titanic provocou-me uma sensação de amor-ódio semelhante a este Slumdog.
3º- O sitema de castas na Índia tem que acabar.
4º- Já se fala de retorno ao Marxismo, pode-se ler um artigo sobre isso na Visão desta semana.
5º- O único mérito do Kill Bill é debruçar-se sobre filmes de série B.

Finalizando, "Slumdog Millionaire" é, para mim, um filme que entretem, cumprindo esse escopo na plenitude. Não é um filme inovador nem original. Está completamente imbuído nos moldes de montagem MTV. Tem um genérico final atrozmente absurdo, sendo que dentro deste conceito de absurdo não encontro qualquer acepção dadaísta. Vale a pena ver, com pipocas. Duvido que ganhe óscares ou qualquer prémio que seja.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Itálicas considerações






























Há muito que venho afirmando que vejo a película de Marco Tullio Giordana como uma continuação da antecedente de Bertolucci. As razões são de ordem vária, principiando pela duração do filme. Afinal de contas, são poucos os filmes de seis horas que existem na história do cinema, retirando do lote as excentricidades cinemáticas do "casalinho" Warhol/Morrisey, que mais valia não terem sido vistas por ninguém, como aliás me parece que não o foram...
Mas existem outros pontos de contacto que me parecem evidentes. A narrativa histórica é comum nos dois filmes e, acaso do destino ou não (a mim parece-me que não), o relato da história italiana começa, em "La meglio gioventù", exactamente onde o mesmo acabara em "Novecento". Cem anos da história de um país, mais coisa menos coisa. Aliás, emende-se..., quase toda a história de um país que, enquanto tal, só se conhece desde o século XIX, não convirá esquecer.
A finalizar, outro argumento, para mim o mais relevante e que me parece ter sido o móbil de Tullio Giordana, alertando porém, que me parece um dado adquirido ter o mesmo visto a película de Bertolucci. São realizadores da mesma nacionalidade, naturalmente cinéfilos e informados. Mas dizia eu, esse argumento prende-se com a temática central do filme que, a meu ver, é não mais que a amizade. Marco Tullio Giordana tenta escapar às conclusões aventadas por Bertolucci aquando do final de Novecento, parece-me... Abordando a mesma temática, embora com um espectro bem maior e não somente baseado na "amizade a dois", tenta demonstrar a necessidade do "grupo", vendo nele as possibilidades que Bertolucci claramente não viu no seu "Novecento".

No entanto, é de epopeias que falamos, e nestas parece-me, o reducionismo à ideia central reduzirá naturalmente a abrangência das obras. Quis-se apenas salientar um aspecto, não mais. Dizer que Bertolucci é real e Giordana ideal, seria passar a uma análise que não me interessa fazer, antes contrariar...

terça-feira, janeiro 27, 2009

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Auto-estradas e intersecções

Em "Le goût des autres", Agnès Jaoui, essa brilhante argumentista, espelha a clara ideia de que a certos seres sensíveis, apenas lhes falta o acesso a certo e determinado tipo de informação, para que essa sensibilidade se "qualifique" e por essa via se torne universal.

Ao fim e ao cabo, a ideia que Jaoui tenta transmitir, não é a de que há gostos de uns superiores aos dos demais, mas apenas e tão só que "o gosto de uns é o gosto dos outros".

Interessantes as ideias que se retiram deste filme e interessantes as assumpções que do mesmo se inferem relativamente ao serviço social que incumbe aos que difundem a cultura.

Ao fim e ao cabo, não se trata nunca de ser o mais culto e daí nos podermos superiorizar aos demais na eterna luta pelo poder, mas somente de encontrarmos semelhantes em níveis de qualidade parecidos aos nossos, para daí superar a existência. É esse o objectivo da cultura, parece-me..., que o gosto de uns possa ser, em parte, o dos outros..., que existam intersecções..., que se falem linguagens semelhantes...

Ora, vejo por aí muitos Castella's que não se entendem com professoras de inglês, muito menos com actrizes dramáticas... E não me parece que, no presente estado de sítio, algum dia o possam vir a fazer... Não me parece sequer que haja intenções de isso vir a acontecer...

Citando o defunto: "Se sabeis estas coisas, bem aventurados sereis se as praticardes"

Reinterpretações



(Ingmar Bergman - 1973)



(Michelangelo - 1499)


terça-feira, janeiro 20, 2009

Newsletter do Primavera musical - Castelo Branco (acabadinha de receber)

PRIMAVERA MUSICAL 2009
15º Festival Internacional de Música de Castelo Branco
NEWSLETTER – Janeiro 2009

Que 2009 seja um ano muito preenchido de boa música!
Se tudo corresponder ao calendário apresentado pela Direcção Geral das Artes, em Fevereiro, na primeira quinzena, teremos disponíveis os primeiros resultados obtidos pela nossa candidatura aos apoios directos quadrienais do Ministério da Cultura. Estes resultados são extremamente importantes não só para a edição deste ano, mas também para o futuro do Primavera Musical. Daremos notícias logo que as recebermos. Relembramos que todas as informações veiculadas nestas newsletters são condicionadas por estes mesmos resultados.

15 anos de Primavera Musical! Muitos foram os momentos de exaltação musical que vivemos ao longo destas edições do Festival e será algo injusto referir apenas duas ou três, mas vamos arriscar e prometemos voltar a lembrar outros momentos numa próxima oportunidade. Um dos marcos que merece amplo destaque é aquele que foi o concerto que nos mostrou, logo no início, que valia a pena continuar com o Primavera Musical: o Quarteto Borodine, no ano do seu Jubileu, comemorando 50 anos de existência, provocou uma enchente no auditório que, na altura, era o mais usado por nós, o da Escola Superior Agrária de Castelo Branco. A surpresa foi enorme, pois embora seja um grupo incontornável, na música de câmara, nunca esperámos tamanho entusiasmo e até alguma histeria. Cadeiras suplementares, longas ovações e intermináveis sessões de autógrafos, no final. Todos os discos que havia disponíveis para venda desapareceram num ápice e até lembramos algumas discussões porque havia quem quisesse aquele disco e não o outro. Foi esse o último ano do violetista Dmitry Shebalin com o quarteto e passado pouco tempo o primeiro violino Mikhail Kopelman sairia também, tornando este concerto um acontecimento único.
Num outro registo, a vinda do guitarrista Egberto Gismonti ao Primavera Musical quase que esteve para ser cancelada mal o extraordinário músico brasileiro pisou o solo português. Eventualmente o seu cabelo comprido, as calças de ganga, a barba grisalha e a caixa da guitarra, impulsionaram a polícia de fronteira para um questionário considerado pelo autor de “Água e Vinho” como inaceitável. Após muito tempo de espera o primeiro contacto foi mesmo esse: manifestou-nos a sua vontade de voltar já para o Brasil. Ao fim de cinco minutos de conversa tudo acalmou um pouco e ainda bem. No dia seguinte e perante um Cine-Teatro Avenida completamente lotado, Egberto Gismonti, primeiro com a sua guitarra e, depois, no piano, deixou uma marca que ainda hoje perdura em muitas pessoas. E que melhor resultado para o nosso trabalho de programação e produção, que as marcas que, aqui e ali, o Primavera Musical vai deixando no seu público?

É por isso mesmo, que estamos a trabalhar para que este ano de 2009, seja marcado pelo nosso aniversário.
Já vos falámos no guitarrista Martin Taylor e no Quatuor Psophos, mas queremos que saibam um pouco mais, nesta newsletter de Janeiro.
Qual o papel da Crítica Musical nos nossos jornais, rádio e televisão? De que forma os meios digitais estão a alterar a função do crítico? Até que ponto a dimensão do mercado afecta a actividade do crítico? E lá fora, como é?
Estas são apenas algumas das perguntas que vão estar em discussão no Fórum dedicado à Crítica Musical, que vamos organizar nos dias 23 e 24 de Maio, em Castelo Branco. Convidamos Cristina Fernandes, que escreve habitualmente no jornal Público, para ser a coordenadora deste espaço, que irá contar com a participação de alguns dos mais destacados críticos que trabalham em Portugal.

Esta é uma das novidades que estamos a preparar para si, mas gostávamos também que soubesse que dedicaremos uma parte do Primavera Musical 2009 ao bicentenário da morte de J. Haydn. Um dos concertos mais importantes será a apresentação de Canções a três e quatro vozes pelo grupo Voces Caelestes, dirigido por Sérgio Fontão e com Ana Mafalda de Castro, como cravista. Será a primeira vez deste magnífico grupo não só no Festival mas também na região, o que constituirá uma oportunidade única e imperdível, para os ouvir. Mas quando será? Tudo aponta para o dia 16 de Maio!

A próxima newsletter será enviada em Fevereiro.

Até lá, Boas Músicas e vão tirando notas para a agenda!
Carlos Semedo
Co director artístico e produtor executivo

Toda a Primavera aqui:
http://www.primaveramusical.org/ http://www.primaveramusical.blogspot.com/
Posfácio: Alegra-me saber que há cultura no interior do país, com qualidade, diversidade, informação democrática e calendarizada e, especialmente, altruísmo e dedicação. E não estou a ser cínico, apenas inversamente realista e democraticamente opinativo...
Deixo um link para uma coisa que, embora demasiado urbana e passivel de urticário contágio a quem por estes feudos dela tome conhecimento (se é que não tomou já), poderia ser útil a futuros projectos:
E uma coisa deste género a abarcar Fundão, Castelo Branco, Guarda, Covilhã, Idanha e mais o que vier...? Seria assim tão mau? A U.E. não financiava?
Ups..., o bairro, já me esquecia..., disparate..., esqueçam lá o posfácio... Está muito bom sim senhor! :)

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Bertolucci e os triângulos

(The Dreamers - 2003)



(Novecento - 1976)


Façam-se as consideraçãoes que se fizerem, teremos que convir que a idade traz às pessoas uma certa calma...

terça-feira, janeiro 13, 2009

O mundo de hoje que vai repudiando a humanidade...

A propósito do cinema de Ford, que nos mostrava o que de melhor podia haver na América, e a propósito também de um revisonamento de "O Juiz Priest", pergunta-se: Onde andam os juízes Priest deste mundo?
Há uns tempos via, no Câmara Clara, um programa sobre o Ruy Belo, em que se falava dos tais seres solitários que já não têm espaço no mundo de hoje...
Curioso este evoluído mundo de hoje...
É que o Priest também sabia que os homens não eram bons, que andavam sempre em busca de algo... Ainda assim, as conversas que tinha com o sepulcro da sua falecida mulher eram humanas, parece-me...
Venham eles, se ainda existirem!

segunda-feira, janeiro 05, 2009

A "soma" que ainda vai faltando...




Inscrição na tsil gniliam: há cerca de dois meses

Mails recebidos: 0
Mas vai-se continuando a trabalhar..., há música em pano de fundo, feliz e natalícia, como convém... Tampões para os ouvidos? Naturalmente... Como será possível trabalhar de outra forma? Já houve tempo em que se furtavam colunas, lembro-me, na adolescência... Como já não somos adolescentes, resta-nos apenas lutar pela melhor das "somas"..., ou pela menos má...

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Em terra de visionários quem não tem um olho é rei?

(Escrito dia 21 de Dezembro, pelas 0:15h - Crítica e análise despretensiosa, não aconselhável a quem ainda não viu Blindness)

Acabei agora de chegar de Castelo Branco com uma enorme vontade de escorrer na folha branca o que me percorre. Já não via um filme no cinema há meses, é certo, mas o que hoje vi não foi apenas um filme, foi um compêndio de sabedoria e lucidez.

Não li o livro do Saramago e, muito embora considere que existe uma diferença nítida entre um livro e um filme, entre um argumento, propriamente dito, e uma linguagem multi-sensorial que nos permite captar mais que uma ideia ou um gosto estético na palavra, escreverei o que a seguir se depreenderá. A imaginação é um campo vasto, bem sei, mas gosto de ser sensorialmente manietado, gosto mais de CINEMA!

Dizia o Bazin sobre os "jovens turcos": "(...)eles têm o cuidado de nunca reduzir o cinema ao que ele exprime(...)". Entendo-o, mas desprezo-o simultaneamente... Gosto de perspectivas holistas e sinto algum repúdio pelo deslumbre de "uma certa tendência" pretensiosa direccionada a perspectivas eminentemente monistas... "Le cinéma est le cinéma"? Já achei que sim, mas cada vez penso mais que não faz sentido algum pensar que sim...

Guardarei, portanto, o sumo para o fim e, armando-me em "turco", direi somente que há, pelo menos, um plano em Blindness que fala por si. Passa-se já no "campo de concentração", quando Meirelles filma Julianne Moore e Mark Ruffalo num só plano fixo, ela em close-up e ele desfocado, em pano de fundo. Poder-se-ia até dizer que escapou ao realizador o uso da profundidade de campo, embora considere esse "escapar" profundamente intencional e absolutamente valorizável. Meirelles é grande! Ela vê, ele não... É o cinema a falar por si, num apogeu de tremenda intensidade, num "fazer de mestre". Tecnicamente perfeito, de início ao fim... Vulgares os planos de branquidão, fácil a música que os acessoria..., belos, ainda assim...


Mas não falemos de cinema, aliás, não falemos de "Blindness", falemos antes do sumo! Falemos de "Ensaio sobre a cegueira", ou das possibilidades de exploração de um argumento por via de um processo "não-cinemático, ainda assim, cinéfilo"!

Este ensaio sobre a cegueira é, simultaneamente, um ensaio sobre as virtudes e defeitos (para não usar a expressão "pecados", mais própria de um texto religioso do que de uma qualquer acepção contemporânea) do homem, sobre a natureza humana, em sentido complexo, diga-se...

Aborda-se a temperança, a alteridade, a prudência, a coragem, o ódio, a inveja, a luxúria, a vaidade, entre tantos outros conceitos que lhes estão conexos...

Saramago pergunta: E se toda a gente ficasse, de súbito, cega?

Saramago pergunta: O Homem é "bom selvagem" ou "Leviathã"?

Saramago pergunta: Onde desemboca "macro-socialmente" o colectivismo? (pergunta, aliás, interessante para quem sempre se assumiu comunista...)

Perante uma suposta patologia, cuja explicação científica não se encontra, o estado logo se prontifica a afirmá-la contagiosa e a velar pela sobrevivência dos não-infectados, tratando os restantes "como os nazis trataram os tais indivíduos de nariz meio esquisito"... A possibilidade de não-contágio, perante a necessidade de salvar a espécie, nem sequer se figura, mas, uma coisa é certa, a mulher do médico resiste...

Já no campo de concentração vemos o médico encarnar a figura do "sábio", o homem que parece ser o estereótipo do "bem formado". No entanto, Saramago, como contemporaneamente se impõe, procura escapar à dicotomia Hobbes/Rousseau, preferindo, parece-me, entender uns como bons, outros como maus, todos capazes de ver o bem e o mal, alguns mais toldados, outros mais ainda. E é esse comunista chamado Saramago que aborda a fome no epicentro do bem e do mal, esse comunista que, concordando com Rousseau num aspecto, nos diz que só em pequenas comunidades podem as coisas correr bem...

O momento em que o personagem interpretado por Danny Glover mete aquela música a passar e todos à sua volta parecem entrar numa espécie de "assumpção colectiva de belo", o momento em que esse "solitário bom selvagem" ensina aos demais o essencial, transmitindo-lhes esperança, é simultaneamente o momento em que o espectador diz para si mesmo: "cego é quem não sabe ver com o coração"...

De súbito, entra Gael García Benal e a brigada dos "mal formados da vida", dos que passaram fome... Aí Saramago, politicamente inteligente e humanamente elucidado, logo põe a nú um dos principais perigos da monarquia enquanto sistema político. Benal auto proclama-se rei, quase à semelhança de um Napoleão ou Júlio César e, coroando-se a si próprio, este "rei mal-formado" naturalmente reinará no caos mais escuro que à natureza humana pode ser mostrado...

De entre o sem número de antíteses que nos são presenteadas, é curioso analisar a cena protagonizada pelo casal oriental junto à fogueira. Ambos se amavam realmente, apercebemo-nos disso quase a final do filme. No entanto, enquanto ele esquece o caos e se agarra desesperadamente ao amor, ela tem medo ao ponto de "não se conseguir deixar guiar pelo coração"... É aí que Saramago nos diz que não há só bons e maus, há também fortes e fracos..., é aí que nos explica o que significa a coragem e a prudência..., é aí que critica o medo...

Quando a comida começa a faltar, as virtudes são suplantadas pelos Leviathãs, esses sim, os mais fortes no mundo dos "verdadeiros cegos". Logo se apressam a querer ouro, luxúria, ganância, ignorando, até, que nenhum bem material lhes servirá de algo na situação em "que-(e)stão". Quando se apercebem disso, pedem mulheres, mulheres que não amam nem querem..., pedem o "não-amor" forçado, esquecendo, afinal, o essencial..., esse essencial que alguém um dia disse ser "invisível aos olhos"...

Curiosa a personagem do verdadeiro cego, esse que sempre o fora e, quiçá, sempre se sentira inferior por isso... Ganancioso, vingativo... Quis, também ele, ser rei.

O médico não entende, pergunta-lhe porquê..., pergunta-lhe como é possível que não entenda porque, acima de todos, deveria perceber o que aquela limitação implicava. Pede-lhe para dividir, abdicar, dispôr...

A lucidez de Saramago constata-se no facto de esse médico que Ruffalo interpreta também fraquejar, no facto de também ele ter fome... Afinal, também os bons, os "bem-formados" são, acima de tudo, animais.

Ruffalo faz amor com a prostituta, mas a sua mulher resiste... Moore será talvez, no enredo do filme, a personagem menos interessante na abordagem do argumento e das ideias para as quais o mesmo nos transporta. Ainda assim, a mais importante no desenrolar da narrativa, a mais forte das "bem formadas"...

Curioso como Saramago imagina "a messias", ou o que transporta da mulher com quem vive para este ensaio sobre a cegueira... É bonito o amor, ainda que na terceira idade..., pressupõe sempre admiração! Quando Ruffalo diz a Moore que já não a vê "como mulher" e que precisa, simultaneamente, que ela lhe "limpe o rabo", penso que, na verdade, vemos Saramago a falar com a sua Pilar..., mas num outro ensaio, o da velhice...

Lembrei-me, a este propósito, de uma entrevista do David Lean que vi há muitos anos... Dizia ele sobre a Lara de Jigavo qualquer coisa como isto: "ela personifica aquela mulher que rareia, capaz de se entregar completamente a um homem e à sua obra, completando-o... A visão de Pasternak é romanceada e retrógrada, atente-se... De qualquer forma, existe com certeza um ponto de comparação entre esta "mulher do médico" e essa Lara, também ela a "mulher do médico", do possível altruísta, do filantropo...

A dada altura, acabam os campos de concentração e a cegueira deslocaliza-se rumo à constatação evidente do caos, que já tinha, aliás, sido prestidigitado pelo rádio de Glover, o zarolho. Aí, até na religião vemos esse caos, com ícones vendados e templos majestosos que perderam, naturalmente, a aura de majestade... Não sei se há mais sobre isto no livro do que no filme, mas não é explícita esta ideia que, na escrita de Saramago, parece-me, se tornaria evidente...

Há uns dias vi um documentário sobre o Saramago na 2, belíssimo, diga-se. Afirmava o autor que, de todas as personagens que inventou, a de que mais gosta é o "cão das lágrimas". Entendo agora porquê... Repare-se que, no cenário apocalíptico que Saramago figura, ao vermos "cães raivosos" a devorar cadáveres humanos, quase que nos vem à ideia que a era do homem acabara no filme... Confrontamo-nos com a tal espécie mais frágil (a humana) que, fruto do desenvolvimento da inteligência, perdeu capacidades adaptativas inatas... E depois? Depois aparece o cão que lambe as lágrimas, o cão que não quer devorar..., a metáfora de que não é só no ser humano que existem os bons e os maus, os bem e os mal formados... Simultaneamente, os olhos que não servem só para ver..., que servem, também eles, para sentir, para chorar...

Chegados à casa de Moore e Ruffalo deparamo-nos, uma vez mais, com a ideia inicialmente espelhada no antagonismo entre o "vil cego que nunca vira" e o "zarolho que deixou de ver", o que via só negro e o que via só branco... Constatamos aqui a angústia da personagem de Glover, curiosamente, o narrador... Ele que fora sempre o solitário, que vira sempre as pessoas no seu interior, que se carregava ainda de medo em enfrentar a solidão... Interessante, mais uma vez, a estonteante lucidez de Saramago quando, após o "descegar" do oriental, nos explica, simultaneamente, as angústias, os medos e os sonhos daquele aprazível "bairro do amor"...

O filme termina em grande, parece-me... Destranca-se com chave de ouro, concluindo uma mensagem de esperança, leia-se, só quando a humanidade deixa "de-ver" e volta a fazê-lo é possível a tomada de consciência do essencial...
Afirma-se, penso, a noção de que os cataclismos não se devem procurar, sendo contudo necessários ao equilíbrio do homem e da humanidade. Tal como um homem, quando cai em depressão ao sair dela se renova, a humanidade, quando deprimentemente se destrói, ao reconstruir-se valoriza-se... Tem sido assim...

Se calhar, a messias não foi Moore, essa apenas transportava o fardo... Se calhar, o verdadeiro messias desta história sobre a cegueira foi Glover, o zarolho...

Obrigado Meirelles, mas sobretudo, um grande bem haja Saramago, pela enorme lucidez e sabedoria que tens!
(e, com este texto, terminam as projecções de 2008, é a prenda de natal que vos dou...)

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Mailing list


Inscrição na mailing list: Há cerca de um mês...
Mails recebidos: 0
Moral da história: Há duas formas de trabalhar... Uma tem por base a visibilidade, a outra tem por base o conteúdo substantivo...
A primeira das formas é a escola Santanista no seu melhor!
Filme, apenas se aconselha um: "Le mépris", ou aquilo que por mais que se queira não se consegue fazer...

terça-feira, dezembro 09, 2008

Gangs of New York


Ontem revi, pela enésima vez, o "Gangs of New York" na televisão.

Sempre admirei o cinema de Scorsese. Pela frieza, pela raiva, pela agressividade cega, espelhada, de início ao fim, numa montagem rápida e frenética. Sei, no entanto, que os méritos da montagem são partilhados com Thelma Shoonmaker, ela sim, a grande obreira do "frenetismo scorsesiano"...

Um realizador nunca é aquilo que as pessoas pensam... Há autores, certo..., mas já são raros os Fassbinder's e os Godard's deste mundo, que se empenham em acompanhar todos os processos de criação de um filme. Aliás, relativamente a Scorsese, não lhe conheço filmes em que seja simultaneamente realizador e argumentista. Se os há, desconheço-os...
Scorsese é, portanto, uma espécie de "general", um realizador propriamente dito, no sentido hollywoodesco da palavra. Sempre foi o italo-americano que, pondo de parte o seminário e a vocação sacerdotal, se entregou ao cinema americano, com um pé em Hollywood e outro na Europa. Nunca se assumiu como realizador independente, nem nunca deixou de se assumir como tal. É um híbrido, parece-me...

Mas falava de Gangs of New York e isto apenas porque ontem o vi com outros olhos... Sei que era um projecto que Scorsese tinha em mente desde os anos setenta e sei também que o levou a cabo ambicionando o óscar que, no entanto, apenas viria a conquistar por "The Departed". Lembro-me de, na altura, ter ouvido uma entrevista do Scorsese em que o mesmo dizia ser este o último filme feito com cenários reais e sem recorrer a efeitos digitais em 3d. Estava mesmo a fazer-se à estatueta o senhor!

Nunca estive em Nova York, apenas oiço falar da tal "cidade que nunca dorme" e de um multiculturalismo imenso provocado por um encontro de raças diferentes. Da urbanidade no seu estado extremo, do anonimato, do ritmo, da velocidade da vida...

Em Gangs of New York, Scorsese mostra-nos que aquela cidade foi feita por rufias, por gente da pior casta que existia e que fugiu da Europa na ânsia de encontrar um paraíso... É a vulgar história do fim das colónias... Há irlandeses, italianos, chineses, negros e tudo o mais...

Nesse ambiente de meados do século XIX, vemos as salas de ópio, os salões das gueixas, as orgias, a formação de clãs e o nascimento dos ritmos africanos que posteriormente deram origem aos blues e ao jazz. Vemos esse frenetismo um pouco por toda a tela.

Achei muito interessante o momento em que Daniel Day Lewis fala de um negro a dançar, caracterizando essa mesma dança por uma mistura e simbiose de muitíssimos factores. Scorsese é explícito: É disto que se fez a América... Na América não há americanos que não os nativos..., o resto são arestas de uma pedra, ainda por lapidar.

E agora, pergunta-se: como é que um caos absoluto desemboca noutro caos absoluto criador da maior das metrópoles? É que parece-me que terá sido esta ideia que fascinou Scorsese! A ideia do binómio construção/desconstrução, ideia comum a toda a história no que toca à emergência de civilizações, à sua decadência e às possibilidades de um "novo construir".

O resto, em "Gangs of New York", é menor... Historieta e romancezito e guerrinha para aqui e para ali... Faz parte e ocupa bom espaço, mas não deslumbra...

De qualquer forma, o "Italo-Americano" está de parabéns pelo processo catártico e pela busca das suas origens. E está de parabéns, acima de tudo, por ter conseguido mostrar, de uma certa forma, a frieza do nascimento de uma civilização, sem quaisquer máscaras.

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Está mas é caladinho,
O Natal está a chegar

brutinho,
vai na léria...


e vai-se porque se gosta...,

só por isso e enquanto se gostar!

não destruam,
não destruo

Quero...,
para quê?

Deixo de querer...
Porquê!?

Menos porquê?

Porque não...!

Porque sim...

Porque é como é, querendo...,

Infinitamente como se é...

Como se é na resposta que não se tem

E tarda...

Mas deixem esse tardar retardado menos que o que não se retarda...

Sabe bem

a todos...,

ou não...


Não é?


Se retardar fosse retardado, eternamente no jogo de brincar...

Aí não seria?

Com as palavras?

Essa volúpia do que se expressa sem se expressar...

Como se a antítese perfeita, apenas acrescentada pelo acrescento que não vem...


Que também é deixar de cuidar, mas nunca em ignorância de ser...


Que, ao fim e ao cabo...

Se é que caibo

que não sei nem vejo........................,

sou...

talvez...

sexta-feira, novembro 28, 2008

"Comment l'ignorer?"

A Índia anda bonita, anda...

Acho que há para aí muita gente que devia ver ou rever este filme...

É que a culpa é de todos, mas é, especialmente, dos que têm maiores doses de consciência... E esses não são terroristas, ou pelo menos não se assumem como tal...

Convém lembrar...

segunda-feira, novembro 24, 2008

Cinema mudo - Desenvolvimentos da "psicose cultural fundanense"...

eheh! Apercebi-me agora que não há nada de mal nos cartazes para lá do "20-30 de Novembro, terça a domingo", "essa equação hilariante"... Consultem o calendário...
O Raio do poster não anuncia um ciclo de cinema mudo... É publicidade enganosa! Aliás, quem é que iria imaginar que um cartaz que diz em letras garrafais "Cinema mudo", se referiria a um ciclo de cinema mudo?!?... Só um doidinho... Afinal a publicidade enganosa refere-se a mais uma "produção a Este", que mais poderia ser? Raios partam... Faz lembrar a história da "avózinha e do netinho":
Netinho: Ó avózinha, olha ali um cartaz que diz cinema mudo!
Avózinha: Cala-te... Não se fala de cultura no fundão... Não te disse já que é pecado!
Netinho: Mas ó avózinha, é um ciclo de cinema mudo...
Avózinha: Não te disse já para estares calado! Vês como és burro?!? Que raio te passou pela cabeça para pensares que um cartaz que diz, em letras garrafais, "cinema mudo", se refere a um ciclo de cinema mudo?
Netinho: Mas então, ó avózinha, refere-se a quê?
Avózinha: Já te disse para estares calado... Parece que não queres receber a mailing list...
Netinho: Mas ó avózinha, eu só quero saber o que diz o cartaz...
Avózinha: O que é que eu te disse desde pequenino? No Fundão, cartazes bons são os que se vêm antes das eleições, o resto não interessa...
Netinho: Mas ó avózinha, eu não quero ser político, só queria ver cinema mudo...
Avózinha: Então muda de terra ou de país, porque nesta terra, de cultura, só se fala "a Este", entendido?
Netinho: Está bom avózinha, mas pelo menos levas-me àquele colóquio cultural sobre sopas húngaras?
Avózinha: Vá lá que o meu menino não perdeu o rumo... Levo sim, vou só consultar a mailing list...
(Isto pode não ter muita piada, mas apeteceu-me...)
Adiante:
Houve, de facto, ciclo de cinema mudo, mas esse nem direito a posters teve... Deve ter sido uma projecção muito "intimista"..., tipo "orgia numa vivenda do estoril"... Se houve, ou não, sexo promíscuo, isso é que já não posso garantir... De qualquer forma, se foi mudo, não deve ter valido grande coisa...
De resto, a moagem já tem site actualizado outra vez... Já tinha tido há uns bons meses... Mas, enfim, deve ser como a agenda cultural... Chega o início do Verão e faz-se agenda para três meses, depois vai-se de férias (ou supõe-se que sim, porque se não foi esse o motivo não se consegue aventar mais nenhum...) e, passado o verão e quase todo o outono, aparece a agenda cultural de Novembro! Magnifique!!!
Se a aposta na qualidade está ganha, ou não, não sei...,aliás, sei mas não digo mais do que já disse... Agora, que a aposta na descontinuidade e no "gerir sem rumo" tem ido avante, isso é uma verdade inconstestável, pelo menos ao nível da cultura..., que, para o resto, estou-me bem marimbando...
Novidade de última hora: Parece que há uma newslwtter "à séria" no site da moagem... Pode ser mais um ensejo de publicidade enganosa, adverte-se, por prudência... Ainda assim, divulga-se... Eles chamam-lhe "mailing list"... Vamos ver quantos e-mails é que me chegam por mês e quantos trazem algo interessante?... Mas quase que se aposta, isto é sol de pouca dura... É como a história do Pedro e do Lobo..., ou pelo menos tem sido...

sexta-feira, novembro 21, 2008

...

Passei, agora, incidentalmente pela moagem, olhei com alguma atenção, e tirei uma foto, que me despertou a atenção e me fez regressar ao escritório:


A foto é de telemóvel e não tem grande qualidade, mas olhando-se atentamente, consegue-se perceber o que digo...

Parece que a informação coincide com a do tal site da rádio renascença, do qual falei no post anterior...

Vou pesquisar mais...

Passados alguns minutos:

Até agora 1-1..., mas vamos continuar...

Passado 1 minuto:

2-2! Está renhido!!!

Vamos lá ver se isto não tem que ir a penáltis...

Passado outro minuto:

O árbitro vai na quarta página do google, há duas que não encontra nada, pelo que dá por encerrada a partida...

3-2 - Vitória inequívoca do cartaz situado à porta do Tribunal!

Valha-me ao menos isso, até porque foi o único ao qual, até ao dia de hoje (ainda ontem, dadas as horas), tinha prestado atenção... É que durante a semana trabalha-se...

Resta-me ainda uma dúvida:

Aquele adiado, mesmo no meio da foto acima...

Quer dizer que foi tudo adiado?

Quer dizer que só foi adiado o "magnânimo acontecimento" dos "f.r.i.c.s. qualquer coisa"? (que raio vem a ser isto?)...

Sei que a foto está encandeada, mas, se não usasse flash, também não apanhava nada...

De qualquer forma, não pode deixar de se notar o magnífico trabalho de design deste "Adiado". Aquele rebordo vermelho excita-me... Que loucura!, aliás, que "fricalhada"...

Note-se que o trabalho de design nem é o problema..., até estou a ser parvo em certa medida... Se calhar o aproveitamento do trabalho de design é que não foi o melhor...

Chego, portanto, a uma única conclusão:

Há lojas que têm manequins na montra, algumas até com preços...

Há outras em que, inclusive, se tem que tocar à campainha para entrar...

Na moagem até há montra e manequim, com horários e tudo... Mas a "publicidade é enganosa", até indutiva de psicose, perante a restante informação a que temos acesso...

Temos que entrar sempre, para confirmar...

Se fosse psicanalista, se calhar diria que esta tendência cultural fundanense, elitista do ponto de vista do resultado, reflecte um inconsciente desejo de se assumir, de uma só vez, como elitista... De qualquer forma, não sou psicanalista e os subconscientes não se perscrutam em cartazes de rua, ou mesmo em manequins de cidades dos "engenhos" e das artes...

Já nem tenho vontade de ir à moagem... Já nem me apetece... Ainda assim, irei sempre que souber de algo que me agrade... Mas vou deixar de procurar... Tem que me vir parar às mãos... Vou-me tornar "culturalmente fundanense", pelo menos quanto a eventos culturais no Fundão...

E assim começam, as "pessoas que voltaram", a embrutecer...

Não posso, acima de tudo, correr o "risco de doença mental"... É que até posso ser eu que faço uma enorme confusão com estes factos, que, de um ponto de vista normal, se revelariam perfeitamente coerentes... Mas depois ninguém pagava a indemnização...

Ironias à parte... O que é isto?

quinta-feira, novembro 20, 2008

Ciclo de cinema mudo - Dizem-nos os cartazes...

Já começou o ciclo de cinema mudo na cidade do Fundão! De 20 a 30 de Novembro, terça feira a domingo - "Dizem os cartazes".


É, na minha opinião, interessante que se adopte uma postura "cinéfila" no que diz respeito à divulgação do "cinema" por parte de uma autarquia. Quem conhece o cinema percebe o que digo... Neste sentido, nada a dizer sobre este ciclo. É uma aposta na qualidade, feita por parte de uma companhia teatral que, talvez no passado, tenha comprometido tal aposta...

Não conheço bem as obras da "ESTE - Estação Teatral da Beira Interior"... De qualquer forma, relativamente à única amostra que pude recolher, uma peça de teatro cujo título é "Pax Romana" e que tive a infelicidade de ver, por "hilariante lapso" no que toca à compra de bilhetes, posso estabelecer um paralelismo entre a "ESTE" e uma companhia de teatro de qualidade, semelhante ao que se estabeleceria entre um "pão bolorento" e "uma broa de milho feita num forno a lenha pela avózinha"...

Exagera-se? Talvez..., ou talvez não... Se calhar enfatiza-se, tão só...

Não critico o trabalho dos actores, que me parece esforçado e digno de alguns reparos positivos, no que diz respeito à qualidade desse mesmo trabalho... Critico, sim, a escolha do conteúdo... Embora não saiba, nem possa saber com certezas, se essa escolha pertence exclusivamente à ESTE..., ou seja, se quem está à frente da ESTE é, ou não, um autor...

Poder-se-á inclusive dizer que a peça "Pax Romana" é uma peça para ser vista por crianças e que, nesse sentido, até terá qualidade... Mas aquilo a que assisti nas comemorações do dia mundial do teatro na cidade do Fundão, foi a um auditório cheio de gente, cuja grande maioria nunca vi na vida e cujo universo total teria apenas cerca de um por cento de crianças...

E pergunta-se:

Será que essas pessoas foram ver o teatro por iniciativa própria? De onde vinham elas? Será que essas pessoas, ao ver a informação acerca de uma peça chamada "Pax Romana", se dirigiram voluntariamente às bilheteiras da moagem, compraram o seu bilhete e assitiram ao espectáculo?

Muito francamente, não sei... O único que sei é que elas chegaram praticamente todas juntas, enchendo, de súbito, a moagem, mais parecendo que se tratava de uma qualquer "excursão organizada", do que do "exercício livre de um hábito cultural"...

Poderá, esse tipo de exercício, existir no Fundão? Parece-me que sim... As terras fazem-se das pessoas que lá vivem, não são nada por si só... Se no Fundão vivessem só "lisboetas", ou "portistas", ou "coimbrões", entre outros, claro está, "o galo cantaria de outra forma"... Mas esses, "os fundanenses que conheceram a urbe"..., não voltam! E duvido que a grande maioria deles algum dia volte...

Porquê?

Leiam este texto com atenção... Será, concerteza e pelo menos, parte da resposta à pergunta enunciada...

Tentei encontrar na internet uma imagem do cartaz deste ciclo de cinema mudo, para a expor neste blog, prestando a informação necessária a quem quisesse exercer um hábito cultural em liberdade... As únicas imagens que encontrei na internet não permitiam o "copy paste", pelo que não o pude fazer... Aliás, havia uma que permitia, a que está no site da "ESTE"..., mas nessa imagem foram retiradas as datas...

No site da câmara municipal, tal ciclo não vem divulgado, ao contrário do que aconteceu com anteriores ciclos... Existem sim, um sem número de cartazes colados na cidade do Fundão, pelo que nenhum Fundanense poderá dizer que não teve conhecimento do mesmo...

De qualquer forma, pelo método de divulgação seguido, duvido que seja possível a qualquer beirão, que não fundanense, ou mesmo a qualquer português, que não fundanense, ter acesso fácil a esta informação...

Poder-se-ia aventar o argumento de que "o que se faz no Fundão é para os fundanenses"... Mas, a esse argumento, confesso não ter capacidade para responder, ressalvando, naturalmente, a expressa ironia que ora se demonstra...

Gostaria muito que todas as autarquias da beira interior tivessem uma newsletter cultural... Gostaria muito de poder ser "algo para lá do Fundão"... Gostaria que, nas sessões que existem na moagem, estivessem presentes fundanenses, covilhanenses, albicastrenses..., lisboetas, até!..., mongóis, porque não? :)

E gostaria também de, de vez em quando, dar um saltinho à Covilhã, ou a Castelo Branco..., para assistir a qualquer coisa que tivesse qualidade... Mas só posso dar esse saltinho a Lisboa, ou ao Porto, ou a Coimbra..., porque, no fundo, só lá é que existe qualidade... Porque o que não se divulga não existe!

Não gosto de falar de política..., apesar de confessar que, em certa medida, é o estou a fazer... Não é por se perceber Aristóteles que o poder nos corrompe... Não é sequer por perceber Maquiavel... É, tão só, por "exercer Maquiavel"!...

Não gosto de políticos, enquanto políticos..., de todos eles!... De qualquer forma, o que pretendo é apenas viver numa "CIDADE"..., tão só... E o epíteto, esse, já existe... Faltará porventura o resto...

Vejo tanta gente a trabalhar na câmara... Será que não há "UM" desses trabalhadores com disponibilidade para fazer uma newsletter cultural?

A culpa não é dos trabalhadores, atente-se... Porque esses têm famílias, empregos..., e o que pretendem apenas é subsistir, viver...

De quem é?

Não me interessa (ponto)

Vou ver se dou um saltinho à moagem no dia 12, pode ser que ainda vá a tempo...! Há muito que não vejo cinema numa "SALA", com uma tela gigantesca, daquelas que nos consomem "evangelicamente"! Sei que não é essa a tela que existe ou algum dia poderá existir na tal coisa a que chamam "cidade do engenho e das artes"... Não sou arquitecto..., apenas penso que um edifício tem que ser construído "FUNCIONALMENTE" e, se não o é, pouco se poderá fazer no futuro...

Ainda assim, é "gira" a moagem! "Bonitinho" o edifício... É um museu por si, porque, partindo-se de um modelo pré-existente de arquitectura industrial, se conseguiu arejá-lo com toques de contemporaneidade... Aliás, ainda durante o Imago, assisti a uma espécie de "excursão de pensionistas", vindos de lugares remotos, à Moagem... Assisti até a parte da visita guiada... Que grande visita..., a dos pensionistas, claro está...

Está "gira a moagem"..., reeitera-se... Bem mais gira do que o Fundão merece, parece-me...

Não sei é se tem as valências necessárias a que lá se faça tudo o que se diz poder lá ser feito... Quando se fazem edifícios para mostrar obra, não reflectindo o carácter teleológico da obra, é isto que normalmente acontece... Ainda assim, não sei, sublinhe-se..., apenas reflicto...

Deixo o programa do presente ciclo, "escavado" neste site. Afinal de contas, pode ser que, assim, existam maiores possibilidade de por lá aparecer um qualquer mongol! :)

5 de Novembro, 21h30 – Estúdio Cinema"A Magia de Méliès"

1- The Eclipse, The Courtship of the Sun and Moon
2- Long Distance Wireless Photography
3- The Coock in Trouble
4- The Black Imp
5- The Hilarious Posters
6- The Wonderful living fan
7- The Mysterious Retort
8- The Enchanted Sedan Chair
9- The Playing Cards
10- The Untamable Whiskers1

12 de Novembro. 21h30 – Estúdio Cinema“Pamplinas Maquinista”

A obra-prima incontestada de Buster Keaton, um dos maiores cómicos do cinema, pela primeira vez em alta definição, imagem a imagem. Em “Pamplinas Maquinista”, Johnnie, maquinista da locomotiva, prova a sua coragem à sua amada, alistando-se no exército. Piadas, acção e emoção sucedem-se ao ritmo da música especialmente composta por Joe Hisaishi. O filme termina com uma canção inédita interpretada por Anna Mouglalis e escrita por Georges Moustaki.

15 de Novembro, 23h00 – Lounge Cinema/MúsicaChaplin vs F.R.I.C.S

Curtas de Charlie Chaplin musicadas pela Fanfarra Recreativa e Improvisada Colher de Sopa.A F.R.I.C.S é um ponto de união entre algumas das mais obscuras celebridades do underground portuense. Comungando do espírito ruidoso, festivo e comunitário das fanfarras da nossa infância, cada actuação da F.R.I.C.S leva o público numa viagem psicadélica em direcção a um lugar muito distante das habituais noções de “fanfarra”, “recreativa”, ou “colher”.A viagem psicadélica aqui proposta acompanha as imagens dos filmes de Charles Chaplin, propondo uma singular banda sonora original.

Ps: Se não gostarem de cinema, não frequentem este ciclo... Guardem-se para a "tibórnia" que, como conceito, é também bastante interessante... Só não se pode é "tibornizar" o cinema...

Ps2: Deixa-se uma foto tirada ao cartaz afixado em frente ao tribunal do Fundão, igual a todos os restantes... Que belo cartaz? Reparem nas datas... É irónico, não é?

Vou ver se me deixo de olhar para cartazes... Ainda fico esquizofrénico..., pode ser que já não vá a tempo do dia 12...

Ps3: Deixa-se o cartaz encontrado no site da "ESTE"... Tiraram-lhe as datas? eheh!




Se calhar já não vou à moagem no dia 12... Pode ser que fique por casa a ver um filme, pode ser que vá cavar um bocado de terra, ainda assim, a única vantagem desta "TERRA", venham as pessoas que vierem, porque começo a desconfiar que, quem vem, apenas o faz se "puder exercer Maquiavel" ... E a urbanidade reserva-se à urbe...

segunda-feira, novembro 17, 2008

"A culpa"

No outro dia pus-me a pensar na Amelie Poulin... Aquela vontade toda de desfazer os erros do passado..., o subconsciente..., a "era da consciência"...

Haverá arte sem sentimento de culpa? Haverá, sequer, comunicação?

E depois lembrei-me da religião, e da espiritualidade, e da célebre distinção entre ascetismo ordinário e extraordinário..., e dos "extraordinários" ascetas franceses (cátaros*), e dos evangelhos originais, e de Filipe o Belo, e do fim dos templários, e da tendência para a loucura, e da tendência dos "ordinários exércitos de Deus" para destruírem os loucos...

A perspectiva historicista é sempre interessante... Afinal de contas, nada se inventa, tudo se conjuga, repetitiva e circularmente...

Mas tudo isto são só lembranças, atente-se...

Deixa-se uma frase de Voltaire:

"(...)Entende-se por fanatismo uma loucura religiosa, sinistra e cruel; é uma enfermidade que se contrai como com a varíola(...)"

Equlíbrio? Conduzirá a algum lado? Não de um ponto de vista pessoal, mas de um ponto de vista macro-social?

Sei lá, nem quero saber..., (a essa questão têm-se dedicado os "exércitos de Deus" e os "exércitos do Diabo") mas procuro-o...

*A palavra cátaro tem uma raiz etimológica grega, catharos, que significa "puro".

Para maiores desenvolvimentos sobre esta problemática visitem este texto, que me parece bem estruturado, rigoroso quanto baste e pleno da "possível" informação sobre o assunto...

sexta-feira, novembro 07, 2008

E assim que acaba...

Na ausência de falatório sobre a puberdade de Bergman, poderíamos tecer elogios ao uso da profundidade de campo em Welles...

Bastamo-nos, no entanto, com a constatação do que, de substantivo, existe em Citizen Kane... A vida de Welles mostrou-o...

Será possível fugir ao poder sem encontrar a loucura?

Acho que sim! :)