sexta-feira, março 09, 2007

Os Pássaros

Ontem vi pela primeira vez este clássico de Alfred Hitchcock, realizado em 1963.

Já estava à espera de um bom filme, mas há uma magia em Hitchcock que está sempre presente pelo seu efeito surpresa. Hitchcock pensa sempre no espectador, preocupa-se sempre com o ritmo do filme e com a absorção deste por quem o vê.

Existem inúmeras observações que se poderiam fazer ao cinema de Hitchcock e que o tornam especial. A par de Welles, Hitchcock é, provavelmente, o maior ilusionista da história do cinema. Preferia sempre a luz artificial, especialmente nos grandes planos; preferia sempre o estúdio à paisagem natural, achava que era lá que se podia captar a perfeição que idealizava. Este processo, que quase se tranformou numa obsessão, acabou por datar os seus filmes, estéticamente falando. Ou seja, Hitchcock filmava uma cena em estúdio, com os actores e sem paisagem; depois filmava a paisagem à parte e sobrepunha os dois através de um processo químico. O resultado, tendo em conta a época, era muito bom, mas hoje em dia nota-se uma certa artificialidade em comparação aos filmes contemporâneos.

Outra coisa que gostei em "Os Pássaros" foi o aproveitamento da profundidade de campo, no uso de planos sequência que nunca eram muito longos para não quebrar o ritmo do filme. A isto, Hitchcock contrapunha muitas vezes uma montagem rápida, como é o caso daquela cena na qual aparece um cadáver com os olhos arrancados. Três planos extremamente curtos, com dois cortes em que se alterava a perspectiva do cadáver. O efeito final é de uma carga enorme, não haveria melhor forma de conseguir aquela sensação de espanto/medo no espectador ao filmar o dito cadáver!

Em "Os Pássaros" Hitchcock conta uma história muito simples. Mitch e Melanie conhecem-se, embora antes já tivessem tido alguns conflitos legais. O que começou por ser ódio, transforma-se rapidamente numa relação de tensa sedução. Melanie, num fim de semana, vai procurar Mitch à sua terra natal. Entretanto, acontecem uma série de fenómenos quase paranormais. Os pássaros estão estranhos, atacam as pessoas e, lentamente, vão-se tornando, a cada momento que passa, um perigo maior, num final que se supõe, desde início, apocalíptico.

Não é na complexidade do argumento que reside a magia de "Os Pássaros", mas sim na forma como o mesmo é desenvolvido em cinema. Hitchcock vai-nos dando medo progressivo, calculado e medido de forma rigorosa, como uma avalanche.

É interessante a ideia conceptual que está por trás de "Os Pássaros". A ideia de que somos muito pequenos. Que só somos a espécie dominante enquanto as outras o deixarem. Que invariavelmente aparecerão outros seres dotados de inteligência e da "maldade" que lhe anda associada. Que, inadiavelmente, pereceremos e seremos substituídos...

Sobre o final já muita tinta escorreu. A mim agrada-me este final aberto em que não sabemos se o mundo acaba ou não, se as personagens se salvam ou não. Acho-o perfeito! No entanto, a ideia original do argumento era outra. Nessa ideia, as personagens salvar-se-iam, explicitamente... Ainda bem que não foi avante!

8 comentários:

Roberto Queiroz disse...

A narrativa de Os Pássaros é super interessante e a história cresce a medida em que vamos assistindo ao filme. Hichcock sempre foi e sempre será um mestre. Recomendo Festim Diabólico e Trama Macabra (esse, então, é fantástico).

(http://claque-te.blogspot.com): A Conquista da Honra, de Clint Eastwood.

wasted blues disse...

Apenas é pena só o teres descoberto agora. Mas mais vale tarde do que nunca! :)

Ursdens disse...

Tens toda a razão Wasted. Há realizadores como Bergman, Kubrick, Scorsese, entre outros, dos quais já vi toda ou quase toda a filmografia.

Quanto a Hitchcock ainda só tinha visto Psico, Vertigo e Sabotage. Com o tempo verei a filmografia toda, que já tenho em dvd, mas também ainda sou novinho... :D

wasted blues disse...

Isso não é desculpa :P

Orgulho-me de já ter visto 44 filmes de Sir Alfred ;)

Ursdens disse...

eheh! Mas tu, como diz o nosso amigo Hugo Alves, és a cinéfila mais conhecida de Portugal! :P

wasted blues disse...

Xiça :P Tão conhecida que nem eu própria sabia eheh

renato martins disse...

interessante constatar tambem que este filme, que é de terror, não tem banda sonora!
Ja imaginaram fazer um filme de terror que alem de nao ter musica nao tem aqueles sons de fundo que ajudam o terror a funcionar? sem esses sons o terror funciona muito bem neste filme. de genio.

Anónimo disse...

na verdade o roteiro alternativo é de que eles chegariam à ponte de São Francisco e esta estaria tomada por pássaros.
de certa forma seria uma forma de atestar a condenação deles e da humanidade. em aberto realmente ficou melhor.