quarta-feira, março 14, 2007

Sweet and Lowdown

Da infindável pilha de filmes que tenho mas ainda não vi, decidi-me ontem a tirar este "Sweet and Lowdown", realizado por Woody Allen em 1999.
O filme é uma biografia, mais ou menos precisa, de um guitarrista de jazz cuja história e carreira ainda hoje estão na obscuridade, Emmet Ray, interpretado por Sean Penn. Emmet é uma espécie de lenda, cuja vida e obra não ficou documentada. Diz-se que ficava paralisado só de ouvir falar no seu ídolo Django Reinhardt. Diz-se que era egocêntrico, alcoólico, cleptomaníaco, mulherengo, que gostava de matar ratazanas a tiro e ver comboios passar... Mas diz-se apenas, porque nada se sabe ao certo...

Emmet conhece Hatie, uma dócil muda, que lhe aturava tudo sem retorquir (talvez por imperativos fisiológicos...). Pela primeira vez Emmet decide-se a ter uma relação estável, mas, quando conhece Blanche (Uma Thurman), de imediato deixa Hatie e a substitui.

Blanche é uma personagem muito bem conseguida. Há ali qualquer coisa de Uma Thurman que é sempre invariável, aqueles aspectos de "Black Mamba" que nunca consegue despir no cinema... Blanche é diametralmente diferente de Hatie. É uma mulher independente, que se consome por diambolações intelectuais (por vezes não muito ricas) e que, a final, trai Emmet, destruindo-lhe o tão precioso ego que exalava.

Emmet volta a ver Hatie, mas cedo se apercebe que está desorientado, que pela primeira vez na vida a sua forte personalidade foi posta em causa. É este o momento chave no filme. É nesta altura que Emmet passa a ser ele próprio. É a partir daí que Emmet consegue por de parte o seu ego e exprimir todos os seus sentimentos, abandonando a imagem de "macho obstinado" que sempre o acompanhara. Deixa tudo e todos, isola-se socialmente, e consegue finalmente ser tão bom como o seu ídolo "Django Reinhardt", registando, no final de vida, as suas melhores e mais expressivas gravações.

Esta é a parábola moral que Woody Allen, bem ao seu jeito, nos deixa. A ideia de que a criatividade, para ser total, tem que ser genuína e que a vergonha em expressar sentimentos apenas a poderá toldar.

"Sweet and Lowdown" é um filme com uma estrutura documental. Mais uma daquelas experiências de Woody Allen, que nos provam como pode o seu cinema ter aspectos diversos do "Judeu em Manhattan". Não é uma obra prima, nem de longe, mas vale a pena ver pela delicadeza da história de Emmet Ray.

6 comentários:

Roberto Queiroz disse...

Engraçado, não conheço esse filme do Allen. Ontem - parece até coincidência - também vi um fime do Allen (na verdade, revi: Zelig). Impressionante como que algumas películas do diretor nunca envelhecem. E uma pena que ele esteja longe dos gloriosos anos de Manhattan e A Rosa Púrpura do Cairo.

(http://claque-te.blogspot.com): Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood.

Texto novo no Reação, para acessar:
http://reacaocultural.blogspot.com (na coluna claque-te).

wasted blues disse...

Vi o filme no cinema e na altura fiquei surpreendida com o registo de documentário. Também foi com este filme que descobri Django Reinhardt.

Ursdens disse...

Roberto: De facto longe vão os tempos de Manhattan, A Rosa Púrpura do Cairo e Annie Hall... De qualquer forma, o cinema de Allen, embora não tão perfeito do ponto de vista formal, continua a ser extremamente interessante.

Wasted: Foi exactamente o que também me surpreendeu neste filme. Pensei cá para mim: "O Woody a fazer um documentário?!?"
Quanto a Django Reinhardt, já conhecia, embora não fizesse a mínima ideia de que tinha sido Emmet Ray...

serotonina disse...

Um bom filme som duas excelentes interpretações: Sean Pean e Samantha Morton

Monka disse...

Gostaria de saber se Emmet e Django são a mesma pessoa?

Ursdens disse...

Monka:

Não são... O Django existiu, há gravações dele e foi um grande guitarrista... O Emmet não sei bem se existiu ou se foi uma lenda... Mas um visionamento do filme esclarece-te algumas dúvidas...

Cumprimentos cinéfilos!