terça-feira, maio 30, 2006

Da Vida das Marionetas

Película, parcialmente, a preto e branco, realizada por Ingmar Bergman em 1980, "Da vida das marionetas" é mais um filme do realizador sueco sobre os temas que marcaram a sua carreira e os seus argumentos.

A vida, a morte, o casal, o amor, o sexo, a psicanálise, as pulsões e os recalcamentos, são alguns dos assuntos explanados no filme, marcado pelo forte rigor, tipicamente "Bergmaniano", no que diz respeito à composição dos planos e à mise en scène.

O "filho do pastor protestante" assina aqui um dos seus (muitos) melhores filmes, retratando a vida do casal Egermann, Katarina e Peter. O filme começa com um homicídio e desenrola-se no âmbito da investigação do mesmo. Peter tem desejos, desejos ocultos... Confessa ao seu amigo psicanalista que quer matar a sua mulher, que sente o impulso de o fazer. Este conclui pela insegurança de Peter, por um núcleo de acontecimentos que fizeram despertar nele uma homossexualidade oculta, nunca revelada e camuflada sob a égide da frustração. A relação de Peter e Katarina é liberal, descomplexada, aberta, sobrando, no entanto, uma réstia de verdades ocultas que disseminam a vida conjugal, ou não fosse este filme também um ensaio sobre o casal.
Peter e Katarina são, aliás, personagens antigas, que nasceram em "Cenas da vida conjugal", filme do qual o, mais recente "Saraband" será uma espécie de sequela.

"Da vida das marionetas" foi rodado durante o exílio alemão de Ingmar, atormentado pelo escândalo fiscal em que se viu envolvido e obrigado a abandonar o seu país natal. É, na esteira da vasta obra do sueco, mais um filme que congrega elementos teatrais, tão presentes na obra de Bergman, ele próprio também um dramaturgo. A desmistificação da história opera em todos os quadrantes. Repare-se, a este propósito, no facto de as personagens olharem directamente para a câmara, como que querendo significar que estamos, apenas, perante um filme, técnica usada por Bergman ao longo da sua obra, citando-se, a título exemplificativo, "Mónica e o desejo" e "Saraband".

Um filme marcante, um ensaio sobre a ângústia existencial e o despertar dos fantasmas por ela desencadeados. Depressivo, reflexivo e definível apenas por um adjectivo - Bergman...