segunda-feira, outubro 13, 2008

Imago 2008 - Balanço

A segunda-feira pós Imago é sempre um dia, um tanto ou quanto, depressivo... Se, no dia anterior, uma pessoa ainda passava em frente à moagem e notava uma certa ambiência urbana, no dia de hoje, o máximo que por lá se pode ver é o "cigano meio doido" a mandar vir com os automobilistas, um senhor de boina montado numa famel com um cesto de couves galegas atado na parte de trás, ou um par de habitantes deste concelho extremamente felizes por terem acabado de comprar um novo cabo para a forquilha de ir ao estrume... Não estou a gozar, atente-se, estou apenas a estabelecer um paralelismo, a constatar um contraste...

O Imago, este ano, esteve mais fraco que nos anos anteriores, parece-me... Se calhar foi por ter começado num sábado e não numa sexta, se calhar foi porque o feriado do 5 de Outubro não calhou a meio da semana, mas sim num domingo, se calhar foi porque não há público no Fundão, porque não se geram hábitos culturais sólidos no Fundão, porque a programação cultural vai andando à deriva por entre um emaranhar de decisões de fundo que ainda estão por tomar... Não sei e, muito francamente, não sei sequer se quero saber..., afinal, não é para falar sobre estas coisas que este blog existe...

Adiante:

No dia em que o Imago começou fui ver o filme "Un film comme les autres", realizado por Jean-Luc Godard em 1968. É sempre interessante a hipótese de ver um filme que, antes desta exibição, apenas tinha sido rodado uma vez em Portugal, para mais, legendado em português. De resto, ver duas horas de filme em que a ideia fundamental é trazer os estudantes para as fábricas e os operários para as universidades, parece-me "ideologicamente dispensável"... Enfim, Godard e os seus radicalismos, Godard e a sua obra depois de 67, Godard e a substituição da arte pelo compromisso...

À noite fui à cerimónia de abertura. Foi a primeira vez que fui e, devo dizer, gostei! Gostei, em primeiro lugar, porque tive a hipótese de assistir à curta que venceu o ano passado. Sofro de "comichão de curtas", isso é sabido, mas gostei muito desta, muito mesmo! Chama-se "The Tube with a Hat", é um filme de leste (roménia, salvo erro) e conta uma história simples que, encaixada numa longa metragem, resultaria num momento cinematográfico de grande intensidade! Vejam se puderem, vale a pena!

Uns dias depois, fui ver aquele que, para mim, é o "último filme de Godard"... Isto porque considero "La Chinoise" o grande momento de viragem na sua obra.
Se, por um lado, ainda podemos lá encontrar reminiscências estéticas de filmes como "O Acossado", "Pedro o Louco" ou "Une Femme est une Femme", por outro, esbarramos de caras com o compromisso ideológico radical assumido, ainda hoje, por Godard e que o fez romper com os demais realizadores da nouvelle vague e amigos dos cahiers du cinema... Por essas razões e muitas outras (nomeadamente o facto de este ser, não apenas um filme, mas um documento histórico de sobeja importância no que ao Maio de 68 diz respeito) gostei muito de "La Chinoise".
Naturalmente que o Maio de 68 teve muitas coisas boas, mas parece-me claro que a assunção de discursos extremistas sem qualquer noção da realidade das coisas, conduzirá inevitavelmente a um vazio...
É engraçado o momento do filme em que vemos o professor académico a conversar com a aluna revolucionária... Dizia-lhe ele qualquer coisa como isto: "Agora conquistam o poder, tudo bem... E depois o que é que vão fazer com ele, como é que vão mudar as coisas?" Não sei se este professor académico é uma espécie de alter-ego do autor, para o saber teria que me dar a uma série de trabalhos que, para já, não quero, nem tenho tempo para ter... De qualquer forma, é sempre interessante que se coloquem freios às ideias, que se cultive a responsabilidade... Se calhar foi isso que falhou no Maio de 68...

De resto, não consegui ver o "The Great Rock 'n' Roll Swindle"do Julien Temple, uma vez que foi adiado de sexta à noite para sábado à tarde..., pena..., mas assim fica descrito "todo o pouco" que vi de cinema neste Imago 2008...

No que toca a concertos, gostei do concerto dos Principles Of Geometry, embora entenda que não era um concerto para ser exibido num auditório, gostei do Badly Drawn Boy e de Sam and the Plants. Perdi algumas coisas..., tenho pena de não ter visto, por exemplo, Voice of The Seven Woods, mas, enfim, para o ano há mais, ou pelo menos assim se espera, a bem do "projecto de cidade"!

6 comentários:

pedro fiuza disse...

ai ai ai... quem me dera lá ter estado...

Ursdens disse...

Eheh! Estarás para o ano, esperamos nós!

Abraço!

Anónimo disse...

Caríssimo Cesário Verde: que sobejos paralelismos e contrastes evocas, de uma suposta cidade viperina, apenas assim revelada, aquando um evento de cinema lhe permite suar, evaporando a sua "ambiência urbana"... Por certo, continuo sem perceber a insistência nesta temática do ruralismo/problematização do acesso à cultura em Portugal/concepção de felicidade perante cabos de forquilha, ou couves-galegas, ou desprezados com hábitos peculiares de ocupar o tempo… De longe, Godard, de todos os cinematógrafos o menos radicalista…talvez sim, o único com manhas de marketing e auto-promoção, daí rebelar-se da N.Vague ou dos Cahiers… Bah! De facto, uma perda de tempo num evento destes! Experimentemos antes, isso sim, visões sem mofo, Radu Jude em efeito! Ou um Jean Becker (vividamente ao vivo no TAGV!) a partilhar-nos o seu último devaneio incluído no Festival de Cinema Francês! Porém, será que a tua ‘comichão de curtas’ apenas demonstra uma auto-negação da tua parte, uma espécie amor-ódio cinematográfico … estarei errada…? A brevidade de uma boa curta torna o kino ainda mais apetecido - atenção! - simples mas não simplório! Por vezes, prolongar um efeito torna-se venenoso e entediante, não mais que uma droga, tipo a ‘soma’ de Huxley! Todavia, sempre bom testemunhar alguns dos feedbacks do Imago, mesmo do “pouco que [foi visto]”. Desculpa, contudo, por “susbistir” em anonimato, cobardia ou irreverência… who cares?!

Anónimo disse...

errata: por cinematógrafos, entenda-se cineastas (duh! deve ser da emoção cada vez q escrevo aqui...argh!)

Ursdens disse...

Caríssima Florbela, coisamailinda!!! (vou passar a chamar-te assim, dado o teu estado de angústia permanente...)

Não me recordo de ter evocado paralelismos ou contrastes de uma qualquer "cidade viperina"... Isso seriam outras histórias...

Evoco sim, os contrastes existentes entre a urbe e a aldeia... Porquê?

Porque me custa... Porque penso que é possível a coexistência da urbe com a aldeia, porque penso que é razoável exigi-lo, porque penso que há condições para que essa coexistência exista e se alcance um equilíbrio...

Quando um poder autárquico se propõe realizar iniciativas culturais, deve pensar a longo prazo...

Se, em Lisboa, se fizer uma sessão de cinema num qualquer espaço, vão existir espectadores, mais ou menos... E porquê? Porque existem hábitos culturais enraizados, porque já há uma rotina, um conhecimento do que existe...

Se o mesmo se fizer numa terra como o Fundão é possível que não haja público, que não haja nenhum espectador... E porquê? Porque ainda não se geraram hábitos culturais, porque ainda não se estabeleceu uma rotina (gosto de "ainda" acreditar nisto)...

Por isso, das duas uma, ou se investe numa programação regular de qualidade e se dá o tal salto para a instalação de hábitos culturais, ou então vão-se fazendo umas "coisitas giras e plenas de ssspetáculo", enchem-se os auditórios com "pessoal do afago à couve galega e sem qualquer noção de uma aura de melancolismo cesariano" e os hábitos culturais passam a ser, inevitavelmente, "nados-mortos"...

Não sei se assim já consegues perceber "a insistência (que não é assim tão insistente)nesta temática do ruralismo/problematização do acesso à cultura em Portugal/concepção de felicidade perante cabos de forquilha, ou couves galegas, ou desprezados com hábitos peculiares de ocupar o tempo"?

Já agora, uma chamada de atenção... É que eu também sou "uma espécie rara de agricultor" que, de vez em quando, também compra um cabo novo para a forquilha de ir ao estrume... Sou é muito mais do que isso e custa-me que haja gente que não tenha hipóteses de ser muito mais do que isso, nem que o queira... E custa-me também que, para lá do Imago e das idas ao estrume, não haja muito mais que fazer pela cova da beira e redondezas...

Quanto ao Jean Becker, não conheço a obra e, no que diz respeito ao Radu Jude, apenas vi a tal curta que ganhou o imago o ano passado... Longe vão os tempos em que se morava na urbe e se podia ir ao São Jorge ver as estreias da belíssima "Festa do cinema francês"...

No que diz respeito à "comichão de curtas" e aos teus "bitáites" de poetisa da psicologia, acho que não tens razão... Não há, pelo menos neste aspecto, nenhum sentimento de amor-ódio... Simplesmente gosto de "FILMES"! Filmes a sério, com um enredo, com tempo para definir personagens, com espaço para contar uma "HISTÓRIA"...

É verdade que, por vezes, prolongar um efeito se pode tornar venenoso, mas antes uma ejaculação retardada a uma precoce... eheh!!!

Vai aparecendo e deixando versos polémicos, agradecem-se! Mas vê se tratas dessa cobardia irreverente e se te deixas dessas "susbistências em anonimato"... Por aqui não se prende ninguém!

Cumprimentos cinéfilos!

Ursdens disse...

Ah, e já me esquecia... A newsletter cultural da autarquia... a falta que faz... E não custa assim tanto...