sábado, fevereiro 07, 2009

Estética MTV

Havia um senhor chamado Danny Boyle que fez uma mágnífica obra prima, "Trainspotting." Havia outro senhor, chamado Fernando Meirelles, que seguiu a toada e fez outra também magnífica obra prima, "A cidade de Deus". Havia ainda outro senhor chamado Cameron Croewe que, apesar de nunca ter feito uma obra prima (Almost famous é um filme giro), copiou uma sob o nome de Vannila Sky.

E o que é que tudo isto tem a ver? Provavelmente nada, dirá o leitor...

Em Cidade de Deus, temos o Gui Boratto e umas batidas tecno, em Vanilla Sky, aquele fabuloso clip do Everything in it's right place e, em Trainspotting, aquela musiqueta dos underwold. Ou seja, parece-me que não é de filmes que falamos, mas de antologias de videoclips.

É certo que a chamada "estética MTV" chegou há muito e estará para ficar ainda mais uns anos. É também certo que, quando a mesma chegou ao cinema, houve algo de inovador, sem dúvida...

Começa a fartar? (pergunta que se vai impondo...)

Falar sobre cinema e sobre a sua definição seria também falar de entretenimento, vector que o cinema não deixa nunca de preencher. Mas só entretenimento? Arte=entretenimento? Cinema é arte?

Não querendo adoptar acepções "quadradas", nem vou sequer perder tempo a responder a estas perguntas... Vou antes falar um bocado sobre "Slumdog Millionaire", que vi ontem:

1º- O Boyle tem um evidente e autoral fetiche por sanitas.
2º- O Titanic provocou-me uma sensação de amor-ódio semelhante a este Slumdog.
3º- O sitema de castas na Índia tem que acabar.
4º- Já se fala de retorno ao Marxismo, pode-se ler um artigo sobre isso na Visão desta semana.
5º- O único mérito do Kill Bill é debruçar-se sobre filmes de série B.

Finalizando, "Slumdog Millionaire" é, para mim, um filme que entretem, cumprindo esse escopo na plenitude. Não é um filme inovador nem original. Está completamente imbuído nos moldes de montagem MTV. Tem um genérico final atrozmente absurdo, sendo que dentro deste conceito de absurdo não encontro qualquer acepção dadaísta. Vale a pena ver, com pipocas. Duvido que ganhe óscares ou qualquer prémio que seja.

8 comentários:

Airton disse...

opaa achei teu blog no additional camera bem legal...vo segui

da uma passada no meu

eh de cinema e publicidade

http://publicandobr.blogspot.com/

Filipe Machado disse...

Opinião contrária a tudo aquilo que tenho lido. Ainda não vi o filme, vamos ver se compartilho da tua crítica. Abraço!

P. disse...

Até certo ponto compreendo a ideia de estética MTV. Mas acredito que é um processo de evolução, a tal estilização de que falei no meu post no Take a Break (http://takea-break.blogspot.com/2009/02/em-darjeeling-perto-do-fim-personagem.html). Como na m+usica, a tecnologia trabalha em termos de evolução.
A forma como depois se reaplica à arte está sujeita a todo o tipo de críticas e elogios (como a própria arte em si), mas há uma questão de inevatibilidade. Danny Boyle criou um estilo muito próprio. Trainspotting respira isso, tal como muitos outros filmes dele. slumdog não foge a esse prisma, há planos que respiram por si só (miúdos a saltar do comboio, corrida na cidade, etc.).
Parece-me a mim que Boyle o concretizou da melhor maneira. teve sentido de ritmo, não perdeu a história, mas conseguiu exibir-se sob esses moldes estilísticos.Como em «tudo pode correr bem ou mal.George Steiner, li certa vez, fala sobre o facto de o ruído nas xsociedades aumentar ao longo da história.Essa noção tomou-me por completo.E também se aplica à arte. a explosão de um carro num filme tornou-se, genericamente, algo cada vez mais espectacular.é inegável.a sensibilidade está em conseguir trtansmitir arte através das novas capacidades.Fritz Lang, nos anos 30, foi genial em diversas maneiras.Mas uma das coisas que mais destaco é o facto de ter filmado planos que hoje em dia se tornaram "regra", de ter conseguido fazer acção, efectiva acção, em filmes mudos (ou quase mudos) e 70 anos depois manter-se o interesse e a espectacularidade da coisa.
Voltando ao presente, slumdog tocou-me imenso.não é suposto o resto do mundo vê-lo e senti-lo da mesma maneira do que eu.nunca isso.mas a obra é portentosa por se demarcar do muito que há hoje em dia(trainspotting teve isso, cidade deus, como faleste - e eu também no meu post). for arriscado,sim,mas resultando ou não também depende de quem vê, mas acho que oi filme (um filme qualquer) não pode perder todos os seus méritos só porque não o apreciámos.foi isso que me fez confusão na crítica de Luis M. Oliveira.Dar bola preta a um filme implica não mais do que o "matar" na sua perspectiva.Ele está, claro, no seu direito.mas a forma como o justifica (jorge mourinha também criticou muito o filme mas percebi o que quis dizer.mesmo quando não concordas com algo, percebes o por quê de a pessoa chegar àquele ponto, desde que saiba argumentar).a questão da india pareceu-me algo..."inútil".Mostra uma pequena parte da realidade, mas a realidade (o realismo na arte)não era a intenção de slumdog.Luis m. oliveira pode ter odiado. mas parece-me que odiava o filme (e danny boyle, metade do comentário é a insultar o realizador) antes de entrar na sala. são opções.mas fazer carreira a escrever sobre filmes (e aqui já entram os meus próprios valores, humanos e profissionais) implica,no minimo, alguma responsabilidade.aquele ataque (virtualmente gratuito) não é só uma irresponsabilidade perante os outros, é também sobre próprio.pelo menos foi isso que pensei após aquele texto.
Para terminar, acho que é um ponto interessante de discutir na arte actual,essa ideia da estéticaaa MTV.Mas atençãoo, a revolucionária MTV hoje em dia está muito longe do que já foi.O que também é curioso.

Anónimo disse...

Cameron Crowe é unicamente um realizador POP, da cultura popular americana, não me parece que seja um realizador "da estética MTV", muito pelo contrário. É um realizador musical sem dúvida, mas isso também o era Chaplin.
Crowe está muito perto do POP mas longe da MTV.

Gondry por exemplo e por razões obvias está mais para MTV.

Cumprimentos
Pedro Barros

Ursdens disse...

Airton: Vou dar uma vista de olhos :)

Filipe: É a minha muito subjectiva opinião, só e apenas isso...

P.: No teu texto diferencio dois aspectos. O primeiro é a crítica à crítica do Luis M. Oliveira. Nesse aspecto concordo contigo, aquilo não é uma crítica, é uma destruição direccionada e gratuita. O segundo aspecto é relativo ao filme em si. Que outras ideias existem em Slumdog para lá desse retrato da Índia das favelas? A vulgar historieta de amor, a relação entre irmãos, a noção de que o empirismo também pode levar à cultura, pouco mais. Sabe-me a pouco, só isso. Quanto à estética, começo a ficar farto. E o genérico final, muito francamente, dá-me vontades "regorgitativas"... Ainda assim, para mim o filme é giro, não é mau de todo. Regorgita-se, mas não se vomita...

Pedro Barros: Se o início do Vanilla Sky, com a tal música de Radiohead de que falei, não é estética MTV, eu não sei o que a mesma seja... De qualquer modo, que o Crowe é bem mais pop que o Meirelles e o Boyle, parece-me evidente.

Quanto à comparação com o Chaplin, não me parece que faça muito sentido... O Crowe vai beber a outras musicalidades, ora rock, ora grunge... É um "esteta MTV demodé", talvez... Eu já não vejo a MTV há alguns anos, mas de cada vez que vejo um filme do Crowe pergunto a mim mesmo se o "alternative nation" ainda existirá...

Relativamente ao Gondry, ora aí está mais um realizador de clips que vai cruzando esses trabalhos com o cinema. Se calhar nem será de estética MTV que possamos falar, mas de uma verdadeira escola. Deixa-se o ponto de interrogação...

Cumprimentos cinéfilos a todos! :)

Victor Afonso disse...

E por falar em sanitas de Danny Boyle - http://ohomemquesabiademasiado.blogspot.com/2009/02/cenas-no-wc.html

Airton disse...

http://publicandobr.blogspot.com/

piores filmes

toninho disse...

Amor/Ódio é o sentimento que me ficou do filme. "Fetiche por sanitas" e "um certo odor fecal" ... (!) bem apanhado.