terça-feira, junho 06, 2006

Trinta anos esta noite

Realizado por Louis Malle em 1963, Trinta anos esta noite narra 48 horas da vida de um homem, Alain, cujo desfecho se prevê desde início.
O filme inicia-se com uma sequência de imagens que, possivelmente, terão sido estéticamente decalcadas da obra prima de Alain Resnais, "Hiroshima meu amor". Um homem, uma mulher, um leito, dois corpos entrelaçados, uma conversa, um ritmo melancólico. Faltariam, porventura, as cinzas cobrindo os corpos, para que, de um verdadeiro plágio, pudéssemos falar.
Alain é um ex combatente da guerra da Argélia, alcoólico, habituado ao lascivo ritmo da noite parisiense dos anos 50 e 60. Sempre viveu acompanhado de amigos e mulheres, embora, como se depreenda do filme, nunca tenha tocado ou sido tocado por ninguém...
Alain é casado. A sua mulher vive em Nova Iorque e pagou-lhe o internamento numa clínica em Versailles, durante 4 meses, para que este se desintoxicasse. Findo o internamento, Alain volta a Paris, onde tenta reencontrar todos os seus velhos amigos. É na cidade das luzes que se debate com o vazio existencial que o assola e que acaba por levá-lo de novo ao alcoolismo.
É a história de um homem confrontado com angústias, com agonia e sofrimento interior, com o fracasso individual de quem não se conforma com o absurdo. É a história de Alain, em si e nos outros e é, simultaneamente, uma história de desencontros, com a vida, consigo e com os outros. Alain acaba por não encontrar razões para existir, por não conseguir tocar, por não conseguir ser tocado, por a vida não fazer sentido sem o toque...
O título original do filme é "Le feu follet", cuja tradução em português seria "o fogo-fátuo", aquele que emerge dos cemitérios sem qualquer razão aparente. Ora, é precisamente este fogo-fátuo que incendeia a personagem de Alain, numa auto-combustão, em que a razão terá, necessariamente, que ser posta de parte.
Trinta anos esta noite é um filme de enorme impacto emocional, um clássico do cinema existencialista, possivelmente desajustado ao homem do terceiro milénio, mas ainda assim importante. As guerras hão-de voltar, a comodidade irá de novo desaparecer e ser substituída pela angústia, a história repete-se, em ciclos... e o grito de Munch voltará a ser ouvido...

1 comentário:

Anónimo disse...

best regards, nice info here