Sexta-feira, Julho 25, 2008

Factory Girl

Acabei mesmo há pouco de ver "Factory Girl", um filme realizado por George Hickenlooper em 2006 e que retrata a história de Edie Sedgwick, umas das personagens "proxenetizadas" pela Factory de Warhol.

Tenho muito pouco respeito por Warhol, como já disse muitas vezes. Acho que não passou de um pseudo-artista inútil... Um génio do marketing, diga-se, mas ainda assim um grande falsário...
Edie é uma menina rica, muito rica... Cheia de traumas familiares e deixando para trás um curso de artes em Cambrige, ela chega a Nova Yorque, onde rapidamente se integra no mundo da moda, passando a ser mais uma das muitas caras que foram rodando pela Factory. Rapidamente se torna a preferida de Warhol, tão rapidamente como Nico, que lhe roubará esse papel uns tempos mais tarde...

O Filme é a biografia de uma menina imersa no desesperante mundo das drogas, empoleirada por tudo e todos, inicialmente, e logo deixada ao abandono assim que a sua imagem se tornou inútil e decadente... Curiosamente, foi assim também com Nico... Foi assim com quase todos os que se associaram a Warhol...

Factory Girl, embora não sendo estritamente um documentário, tem algo a ver com "Nico Icon", um filme que vi, há alguns anos, e que retratava a vida de Nico. Acho que ambos devem ser vistos conjugadamente, por contarem histórias semelhantes, por retratarem as criações da Factory..., enfim, porque não gosto do Warhol e ponto final...

É interessante neste filme a dicotomia estabelecida no confronto de Warhol com Bob Dylan... Como se de um lado estivesse a forma e no outro a substância..., de um lado a aparência e do outro a genuinidade... Não quero ser céptico, perceba-se..., até porque já há muito que não acredito em histórias de carochinha e em super-estrelas plenas de virtude... No entanto há algo na personagem de Dylan que remete para um lado aconchegante na vida..., o lado da verdade, talvez...
Apreciando o filme de um ponto de vista estritamente cinematográfico, devo dizer que não é nada por aí além..., mais um filmezito, tão só... É bom de ver para quem goste de histórias, de biografias..., para quem se interessa por conhecer a Factory e, acima de tudo, para quem não goste de Warhol....

Quarta-feira, Junho 11, 2008

Nem tudo pode ser perfeito...

Antes de mais, um apontamento:
Os autores deste blog não vêm filmes em divx e são absolutamente contra a pirataria informática...
Passando ao que interessa:

Não é horrível quando um gajo põe um filme em divx no leitor e apenas o cd1 funciona?!?

Aconteceu-me isto com o Lady Chatterley e ainda não consegui controlar a cólera!!! errrrrr!!!! 1 hora e pouco de vida perdida...
Fica o desabafo...

Segunda-feira, Junho 02, 2008

Facto

Este repositório de "húmus mental" fez anos dia trinta de Maio e nem eu me apercebi...
Assinala-se o facto...

Quarta-feira, Maio 21, 2008

Haverá Sangue

Ainda não tinha visto "There Will Be Blood"... Vi ontem.
É engraçado ver um filme que quase poderia ser um clássico mas que, alicerçando-se nas ideias do antigo cinema americano, as usa para destruir aquilo a que muitos chamam o "nascimento de uma nação"...

Tinha medo de ir ver o filme... Ouvi dizer várias vezes que este era mais um "filme de actor" do que um "filme de autor"... E até concordo em certa medida... Daniel Day-Lewis é magnânimo!!! Mas não é só dele que se faz o filme...

É interessante ver um americano (Paul Thomas Anderson) debruçar-se sobre este tema tão provocador... A urgência do dinheiro e do poder / a capacidade destrutiva do mesmo... Interessante é também pensar que, num filme com esta temática feito nos anos 40, sairíamos do cinema a louvar o espírito empreendedor, o trabalho e a dedicação. No entanto, ao sair da sala de cinema onde rodou "There Will Be Blood", o espectador não pode fazer mais do que interrogar-se acerca dos malefícios da obsessão pelo poder e pela riqueza e dos prejuízos que esta pode trazer...

Daniel Plainview (Day-Lewis) esquece tudo..., põe tudo de parte..., não ama nada nem ninguém... Está cego!
Achei arrebatador o momento em que, por uma fracção de segundos, o filme viaja desde o frenesi sonoro até ao absoluto silêncio... Aquele momento em que a mudez de H.W. se transforma num derradeiro silêncio, como se nada à sua volta existisse com sentido...


O cinema de Anderson é sempre um constante desafio às "pulsões Holliwoodescas", um esgrimir de argumentos perante a decadência de uma civilização que se alicerça em "nada" para se afirmar omnipotente... Há uma linha "autoral", não duvido disso...


Um reparo à "estática" banda sonora, capaz de fazer o espectador cair no abismo para realçar momentos chave no filme. Muito original, característica até.


"There wil Be Blood" é um filme nada ortodoxo, em que os movimentos constantes de uma câmara dão aso a uma crítica flagelante aos "orgulhos de uma nação" e, só por isso, merece ser visto! Que o Anderson ande por aí muitos anos... Faz falta!

Sexta-feira, Maio 16, 2008

O que, sabe-se lá porquê, se vai lendo...

"(...)no fundo, há apenas dois tipos de filmes: os reconfortantes e os provocadores - os que conciliam os dois aspectos, como A Regra do Jogo de Jean Renoir ou Do Céu Caiu Uma Estrela de Frank Capra, são raros, e devem ser cuidadosamente preservados."

In:

Quarta-feira, Abril 09, 2008

"Um certo tipo de cinema"


Nos últimos tempos tenho voltado ao hábito de ir com alguma regularidade ao cinema. A terrinha metamorfozeou-se e passou a ter uma programação regular, para mais, com alguma qualidade, o que de certa forma alivia consideravelmente o sufoco de viver na "interioridade"...

Ontem vi "Expiação", o último filme de Joe Wright, adaptado de um romance de Ian McEwan.

"Expiação" é, tal como o título à partida poderia indicar, uma história de remorso, cujo enredo gira à volta de uma mentira irreflectida, levada a cabo por uma criança e cujas consequências, um dia, se tornarão graves e irreversíveis.

É um filme profundo em alguns dos aspectos que tenta abordar, pondo a sílaba tónica no binómio criança/adulto, maturidade/imaturidade... É um filme que enfatiza certas decisões e a preparação que se requer para que um indivíduo possa agir/decidir com responsabilidade. Nesse sentido, o erro de uma criança, Briony, a força de uma adulta, Tallis...
Percebe-se com alguma facilidade a ideia que se tenta transmitir em alguns momentos chave do filme. Tanto pela carta que Briony escreve a Cecilia, como pelo seu encontro com o soldado francês na enfermaria e até pelo "imaginário" acerto de contas com Robbie e Cecilia, entende-se que a questão central em "Expiação" é a de frisar muito bem a diferença que existe entre o pensar de uma criança e o pensar de um adulto, bem como o dramático caminho que, por vezes, se torna necessário para atingir esse ponto de viragem... Aliás, o final do filme é explícito no que a isso diz respeito... É para isso que a prolepse lá está. É para isso que todas as outras analepses são usadas no início do filme. Parabéns ao escritor!... Soube contar uma história...

Mas depois faltou algo, já não no escritor, mas sim no realizador... Faltou uma fotografia à altura ( diga-se que o plano em que Robbie chora com aquele beijo cinematográfico em pano de fundo é uma honrosa excepção). Faltou a capacidade de enfatizar certos momentos do filme sem o recurso a Debussy ou a Puccini. Faltou a vontade de fugir aos planos épicos de cenários bélicos (aquele plano sequência enormíssimo durante a espera pelo embarque deve ter dado tanto trabalho e foi tão escusado...). Faltou o cuidado na montagem que se exige para que certos cortes não pareçam uma tesourada dada por um "sapateiro", mas sim por um "alfaiate" (não sei se a versão que vi está ou não adulterada). A bem da verdade, talvez tenha faltado um pouco de "cinema"...

Em jeito de reflexão, é inevitável não pensar em "Caché" de Michael Haneke quando se vê "Expiação". São filmes com uma temática central idêntica... Num há guerra, no outro não..., num há uma história de amor, no outro não..., mas em ambos existem acções de "miúdos" com futuras consequências danosas e ambos se centram nesse aspecto para transmitir a ideia chave da narrativa. Enfim, os dois filmes acabam, ao fim e ao cabo, por falar do mesmo...

Já tinha escrito, há algum tempo atrás, algumas palavras sobre "Caché", pelo que não me vou repetir... De qualquer forma, o que pretendo evidenciar é que, num filme, não basta ter uma boa história, é preciso saber contá-la através de imagens... Haneke chega à mesma conclusão que Wright, mas fá-lo de uma forma crua, amoral, em bom rigor, isenta... Não nos induz à censura de um comportamento para que o possamos censurar, preferindo antes mostrarno-lo... Não nos auxilia a valorar, dando-nos apenas o objecto e deixando o resto para o espectador...

Joe Wright é menos arguto... Precisa da música, precisa das imagens explícitas, não consegue bastar-se em apenas nos mostrar diálogos, situações, acasos... Pelo contrário, via de regra, prefere o artifício...

À guiza de reflexão final, a diferença entre o cinema e "um certo tipo de cinema" é afinal explícita... Depende apenas da capacidade para fazer "cinema"...

Terça-feira, Março 25, 2008

"Quest-ce que le cinema?"

Hoje passei pelo blog do Hugo Alves e li um texto datado de 14 de Março, o qual me despertou imediatamente a atenção... Esse texto fazia referência a outro, publicado no blog "Claquete", exprimindo uma certa angústia pela observação de afirmações injustificadas, na opinião do Hugo, e ainda para mais enunciadas de forma absoluta.
Antes de mais, deixem-me dizer que é salutar que isto aconteça! É bom que se fale de cinema, que se gerem polémicas, que se discuta o conceito de cinema e se troquem opiniões...
Mas a questão principal é a seguinte, o post presente no blog "Claquete" indicava, sem mais, uma lista de 5 filmes que, na opinião dos autores, estão sobrevalorizados. Esses filmes são "L'Atlante", "The Wizard of Oz", "Les Quatre Cents Coups", "Au Hasard Balthazar" e "The New World".
Devo dizer em primeiro lugar que, destes cinco filmes, apenas vi o segundo e o terceiro, ainda que por várias vezes.
Mas o que é que se discute realmente?
O "Claquete" indica os filmes como sobrevalorizados, enquanto que o Hugo exprime a sua indignação pela falta de justificação e, ainda que a mesma fosse dada, não admite sequer a desvalorização de Bresson.
Depois, seguem-se uma série de reacções... O "Claquete" justifica-se, dizendo que o valor dos filmes é eminentemente subjectivo e que uma valorização histórica não fará sentido, por ser estática... Há inclusive um post de resposta ao Hugo. O Hugo, por sua vez diz que: "No caso do Bresson, acho, salvo o devido respeito, que é mesmo uma falta de decoro total: Au hasard Balthasar é uma lição constante do uso da elipse."
Findas estas considerações iniciais que nos aproximam da polémica em causa, acho por bem deixar a minha opinião, por várias razões..., porque gosto de cinema, porque também me interrogo sobre o conceito de cinema, porque vejo muito cinema, porque leio sobre cinema, enfim, porque o tema me interessa...
Mas o que é isto do "valor do cinema"? Aliás, o que é isto do "valor da obra de arte"? Este valor é pecuniário?, é científico?, é histórico?, é técnico?
Diz o Uzi, num comentário ao post do Hugo, que "O valor de uma obra de arte, seja um filme ou uma pintura, depende essencialmente da utilização criativa da forma e do conteudo, e dos diversos niveis de leitura que essa utilização permite ao espectador. De qualquer modo dizer que o filme do Bresson é sobrevalorizado, não é uma provocação, é apenas um disparate."
Na minha opinião, em parte o Uzi tem razão, em parte o Hugo tem razão e, em parte o blog "Claquete" tem, também ele razão...
A noção que o Hugo apresenta para a valorização de um filme de Bresson que, repito, ainda não vi, é a de que ele é "uma lição constante do uso da elipse".
Só por si, uma lição constante do uso da elipse não me diz nada..., não me transtorna, não me perturba, não me põe os "pêlos em pé de arrepio", não me faz rir nem chorar, enfim, não me provoca sentimento algum... Para que servem os artifícios da linguagem cinematográfica? Para que serve o corte, a elipse, o raccord, o plano sequência, o travelling, etc.?
Servem, na minha opinião, para gerar emoções, para as aprofundar, para lhes dar um ou outro sentido, enfim, para criar no espectador uma impressão (da realidade ou não...). Neste sentido concordo com o Uzi... Não quero é, para já, discorrer sobre a noção de valor em si mesma, preferindo utilizar a expressão utilidade... É que, do meu ponto de vista, a noção de valor está sempre subjacente a um critério, a uma conceptualização social e talvez até histórica... Para mim os filmes não são valiosos, a não ser que se poetize esse conceito, mas apenas úteis. Os que me são mais úteis são aqueles de que eu mais gosto, porque, ao fim e ao cabo, foram aqueles que mais me tocaram, que mais me trouxeram o que deles esperava, que mais me trouxeram uma condição sensível...
É interessante, do ponto de vista da historiografia cinematográfica, "valorizar" filmes chave na história do cinema... "Valorizar" filmes que inventaram novas linguagens, novos processos..., que criaram novas formas da concretização de emoções... Mas essa perspectiva interessante deixa de o ser a partir do momento em que essas emoções não nos tocam, não nos dizem nada, não nos perturbam... E ninguém pode ser tocado por tudo...
A subjectividade é, na minha opinião, o cerne da apreciação da obra de arte. Eu olho para este quadro e "arrepio-me", ou vejo este filme e "reflicto", ou oiço aquela música e "transporto-me"... A arte é uma muleta, tão só... Vistas as coisas friamente, não tem nada de "nobre", não existe sequer "nobreza"... A arte é uma forma de as pessoas contemplarem o belo e se sentirem bem, de segregarem um pouco mais de "serotonina ou dopamina", de esquecerem o "inferno" que o absurdo da realidade causa aos mais conscienciosos... Vistas as coisas desta forma, a arte não é muito diferente das drogas, ou do álcool, ou da paternidade, ou da família, ou da amizade, ou das viagens..., como processo, entenda-se...
Gostar de cinema é procurar um escape numa linguagem que nos agrada. Gostar de um filme, gostar a sério, é sentir que esse filme nos disse algo do ponto de vista do seu conteúdo, nos transportou para onde queríamos ir, para as ambiências que queríamos sentir...
A função do crítico, em bom rigor, é oca... O que ele faz é contribuir para uma historiografia do cinema, estampando em letras uma definição objectiva do bom cinema... Não quero ser mal interpretado... Acredito na qualidade, acho que ela é objectiva..., mas não acredito no universalmente bom e no universalmente mau... O que tem qualidade não tem que ser bom nem mau, tem qualidade, tão só... O bom e o mau é a medida em que cada filme nos toca... É a identificação que podemos ter com cada filme, seja ela própria ou heterónoma.
De Bresson só vi "O Dinheiro", o "Processo de Joana D'Arc" e "O Carteirista"... Não me toca, não gosto, é forçado, propositadamente forçado... Não gosto da direcção de actores, não gosto de toda aquela artificialidade, para mim é mau e ponto final! Se tem qualidade? Claro que tem, reconheço-o! Contribuiu para que fossem feitos outros filmes que me tocaram? Claro que sim! Mas não é por estas ou outras razões que me vou pôr para aqui a fazer odes ao Bresson...
Quando vejo um filme, um filme dos que gosto, torno-me completamente sensível! (e agora estou a poetizar, porque ao fim e ao cabo apenas segrego um pouco mais de dopamina ou serotonina do que o habitual...) Transporto-me para o olhar de uma criança de cinco anos e gosto de o fazer, gosto dessa alienação!
Quando penso sobre um filme que vi, via de regra, depois de já o ter assimilado ao ponto máximo da minha sensibilidade, desconstruo-o. Penso nas razões porque ele me tocou tanto, "cientifico-o", se assim o quiserem... O primeiro processo é único, genuíno, belo... O segundo é meramente interessante... O primeiro processo é aquele do qual se faz a arte e a sua utilidade. O segundo é aquele do qual se faz a crítica, do qual se fazem as escolas, do qual se fazem os movimentos... É necessário, mas não é arte, não é, teleologicamente, arte!
Quando escrevo sobre cinema procuro exprimir a minha subjectividade, procuro falar sobre o que me toca, sobre o que me emociona, sobre o que me é útil... Procuro encontrar pessoas que sejam minhas semelhantes e trocar pontos de vista com elas, procuro encontrar espaços para "coexistir na existência do que sou". Outras vezes procuro mudar os meus pontos de vista sobre certas questões, pôr-me em causa... Procuro ensinar e aprender... Às vezes falo de questões técnicas, às vezes também caio na perspectiva da valorização..., mas só o faço a título secundário, a título de "vamos concretizar uns dogmazitos que identifiquei"...
No cinema, como na vida, o que interessa é o sumo... Sejamos energúmenos e deixemos o espremedor para aqueles que não perceberam ainda que nenhum homem é eterno!
Cumprimentos cinéfilos!

Segunda-feira, Março 10, 2008

Morangos e chocolate

Quando estive em Cuba, os guias, sempre que se passávamos em frente da geladaria Copélia, não perdiam a oportunidade de referir o facto de ter sido ali que tinha sido filmado o grande "Fresa y chocolate"! Foi nessa altura que, pedindo alguns esclarecimentos acerca do filme que até então não conhecia, fiquei a saber que este era o grande ícone do cinema cubano, tendo inclusive sido nomeado para o óscar de melhor filme estrangeiro (o qual, curiosamente, mais tenho em consideração).

Passados uns anos desde essa incursão por terras do Sr. Fidel, lá me lembrei de ver o filme... É assim que acontece comigo muitas vezes... Lá estão os filmes em lista de espera durante anos e anos até que, por magia ou acaso do destino, me decido a vê-los...

"Fresa y chocolate", realizado por Tomás Gutiérrez Alea em 1993, é um filme que por muitos tem sido apelidado de "gay themed movie", conceito que "desconheço" e me recuso a aceitar... Ainda assim, e mesmo tomando em linha de conta uma possível abstracção deste conceito, dificilmente enquadraria este filme no mesmo...

O filme tem como ambiente de fundo a Cuba de finais dos anos 70. De súbito, somos confrontados com a abordagem, por parte de Diego, um homossexual avesso ao regime, relativamente a David, um estudante universitário completamente "lavado" pela doutrina marxista e, ainda que inteligente, demasiado inocente para compreender os defeitos do comunismo cubano.

Diego e David vão aprofundando a sua relação... A intenção de Diego foi sempre a de aproximar David da verdadeira cultura, livre e independente de propaganda, mobilizando-o para a sua causa, "A Cuba Livre". Com o estreitar da relação entre ambos, vamo-nos apercebendo que é possível uma relação entre dois homens com orientações sexuais distintas e que a cultura não passa apenas por ler muitos livros, mas sim os livros certos, aqueles que estão despojados de facciosismos e concentrados em abordar temas, independentemente de conotações dogmáticas.

Poderá até parecer irónico o parágrafo anterior, uma vez que este filme é, marcadamente intervencionista, mas, pondo de parte a polémica do "engagement" que opôs Gide e Sartre em meados do século passado, o importante é perceber que o tema central em "Fresa y chocolate" é a noção de que, em liberdade, a racionalidade se altera, uma vez que as premissas são globais, coisa que nunca poderá acontecer numa educação partidarizada.

Diego é o intelectual por excelência. A sua casa é um museu de livros proibidos pelo regime, um repositório de produtos inacessíveis ao comum dos Cubanos, onde até uma garrafa de Johnnie Walker se pode beber de vez em quando. Em tempos, terá sido um fervoroso adepto do regime, mas cedo as suas esperanças se esventraram, fruto dos abusos de um poder que não mais tinha como prioridade os ideais comunistas, mas sim a sua subsistência... David começa a frequentar a casa de Diego muito a medo, mas a hipótese de ler coisas inacessíveis e o deslumbre relativo às possibilidades que até então julgava impossíveis, rapidamente o vão seduzindo e convidando a voltar mais e mais vezes.

A história é simples e até preenchida por alguns clichés... O miúdo inteligente, educado num ambiente limitado, que conhece o mestre que lhe dá acesso a tudo o que sempre quis... É, no entanto, um filme agradável de ver, muito narrativo, muito fluído...

Devo dizer que não gostei do início nem do final, acho-os demasiado drásticos, mal preparados, pouco romanceados, como quer que se lhe queira chamar... Há quem goste, não duvido... Há quem goste de ver filmes em que o romance é desmascarado para provocar o conceito desse próprio "desmascarar"... Mas eu sou daqueles que não apreciam Bresson por aí além... Chamem-me antiquado, inocente, energúmeno, o que quiserem, mas para mim o cinema é, ou escapismo, ou conhecimento, ou estética, ou narrativa... A arte dos conceitos devia ser substituída por frases..., seria mais simples então partilhar conceitos, em vez de os estampar em imagens...

Relativamente à fotografia devo dizer que não é nada por aí além... Gostei da cor, tão só... Achei-a muito latina, apropriada, enfim...

Passo a vida a sonhar com filmes que falem por si, que sejam feitos de instantes que, de tão marcantes que são, possam contar uma história na ausência de palavras... Esses filmes são o que chamo de "road movies sem estrada", aqueles em que um gesto de um personagem nos leva a conhecer a sua essência, sem que esta tenha que ser descrita de uma forma estritamente narrativa... Chego a um ponto em que os filmes que me satisfazem realmente são apenas esses..., em que tenho quase medo de ver filmes por saber que vou ficar desiludido... O cinema denso é bom, tem muitas vezes efeitos psicanalíticos, mas, para mim, nada se compara a um filme feito de factos banais, recheado de conceitos banais, nos quais podemos encontrar o âmago de personagens que, de tão banais que são, se tornam únicas... Estou a falar de filmes como "A vida sonhada dos anjos", "30 anos esta noite", "Os sonhadores", "Os 400 golpes", "O gosto dos outros", etc... Filmes intimistas, pessoais, aqueles em que "a caméra é realmente un stylo"!

Filmes destes são difíceis de encontrar... Ainda há dois dias vi "Lie with me" e, quando comecei a ver, pensei que seria um dos tais..., mas não era..., faltava qualquer coisa... Há uma certa dose de hedonismo no meu gosto pelo cinema... Procuro muitas vezes o prazer absoluto, aquilo que "mais me toca dentro do que mais me toca"... O problema é que esse "mais que tudo" apenas se alcança algumas vezes, raras... e no fim acaba por ficar a desilusão por não ter sido o "nosso perfeito"...

"Fresa y chocolate" não é para mim um desses filmes, mas ainda assim "vê-se", é agradável, fluído, como disse anteriormente...

E por aqui me fico, no emaranhado de uma série de ideias confusas que, quanto mais amadurecem, mais confusas se tornam...

Terça-feira, Fevereiro 26, 2008

Bahh...


Não vi nada... Não sei se quero ver... Hei-de acabar por ver... Enfim, nem que se queira ser livre, não se pode...

Quarta-feira, Janeiro 30, 2008

Nova Escola de Berlim

Dadas as distâncias geográficas ser-me-á impossível acompanhar este ciclo. De qualquer forma, deixo a informação prestada pelo André Dias, programador do mesmo.Nova Escola de Berlim 31 Janeiro – 6 Fevereiro 2008 Cinema São Jorge, Lisboa


A Nova Escola de Berlim é um movimento cinematográfico que teve a sua origem na dffb, uma academia independente de cinema na dinâmica cidade de Berlim. Estes jovens realizadores alemães têm-se destacado em vários festivais com um cinema fluído e narrativo, baseado numa fotografia límpida e em argumentos que espelham o mal-estar social e pessoal das sociedades em que vivemos.

Destaque para a presença de Christian Petzold, que apresentará WOLFSBURG e GESPENSTER a 6 de Fevereiro, e para os filmes de Angela Schanelec, nomeadamente NACHMITTAG , uma descoroçoante adaptação d'«A Gaivota» de Tchékhov.

Uma programação de André Dias Integrada na KINO – Mostra de Cinema de Expressão Alemã organizada pelo Goethe-Institut.

Sábado, Janeiro 05, 2008

"Control"em-me se não ainda me mato antes dos 25 que já não tenho...

"Control", de Anton Corbijn, é a muito falada biografia de Ian curtis, mítico vocalista dos Joy Division.


O tema é sempre interessante e a vontade de ir ver o filme foi alguma. Ian Curtis, para bem ou para mal, é um dos ícones de uma geração, poeta virtuoso de músicas simples mas tocantes...

Até aqui tudo bem... Mas logo depois..., entra-se na sala de cinema e vê-se aquilo que bem poderia ter sido um filme interessante, mas não passou de mais um filmezito... O pouco que se viu de Curtis em "24 hour party people" sintetiza biograficamente o que "Control" se vai esforçando por "parecer que detalha". É difícil adaptar uma biografia ao cinema, bem sei... Mais difícil ainda, tendo em conta que a vida de Curtis mora ainda num passado muito recente. Mas, ainda assim, sabe a muito pouco a falta de novidade que sentimos na película de Corbijn. Curtis é Deus, sê-lo-á em qualquer lado em que se fale de Deus, mas neste filme não passa de um Santo António ou de um Judas, desprezado e secundarizado no seu papel divino, fruto do desenrolar enfadonho da narrativa...

Não conhecia o trabalho de Corbijn como realizador, aliás, nunca tinha sequer ouvido falar na criatura. Dei-me a alguns trabalhos, no entanto, e fiquei a saber, via imdb, que o senhor, até "Control", apenas tinha realizado clips de música e concertos em dvd, ainda por cima, alguns, de qualidade duvidosa... Finda esta missão de reconhecimento, facilmente percebi que a má realização de "Control" não significava um autor em défice de inspiração, mas sim o oportunismo de um intruso cinematográfico.

Antes de ver "Control" tinha já lido algures uma crítica negativa ao mesmo, na qual se vincava a pretensa estupidez que existe na associação entre a morte de Curtis e o filme "Stroszek". Se é estupidez ou não, pouco me interessa, interessa-me mais que, em "Control", até esse pormenor foi descurado. Tinha, até agora, a ideia de que Curtis se teria suicidado logo após o visionamento do filme. No entanto, após ver "Control" e, salvo a invenção de uma nova linguagem cinematográfica capaz de conferir absloluta alienação ao universo temporal de um filme, não sei, ao certo, se Curtis viu "Stroszek" segundos antes de se matar, horas antes de se matar, ou até mesmo semanas antes de se matar... Para mais, tendo em conta que se trata de uma biografia, tal facto é, no mínimo, deprimente...

Fazendo as contas finais, "Control" é um filme muito medíocre, capaz até de "desdivinizar" Deus, revelando-se uma péssima escolha para quem, como eu, o escolheu para primeiro filme de 2008 em sala de cinema...

Segunda-feira, Dezembro 24, 2007

Hino à época da estupidificação!

Este Natal, para lá de me propor comer, pelo menos, três pudins de ovos e uma lampreia, penso também ver os três Senhores dos anéis, as seis Guerras das estrelas e o música no coração! Se o conseguir é bom sinal, quer dizer que este foi mais um Natal igual aos outros todos, cheio de novidades... De qualquer forma, é bom que assim seja! Os "lugares comuns" dão-nos sempre aquele afago especial! Aliás, acrescente-se o Ben Hur e a Mary Poppins, assim cheira mais a infância e menos a adolescência! É isso que o Natal é, um sopro de infantilidade da memória! Viva os filmes do Natal, as amplas gargalhadas e o convívio com as pessoas de que gostamos! "May the force be with us"!

Quinta-feira, Novembro 15, 2007

Só houve tempo para uma foto...


Terça-feira, Outubro 09, 2007

Acabou-se o Imago!

Acabou-se o fim de semana e chegou ao fim mais uma edição do Imago. No domingo ainda houve tempo para as curtas vencedoras e para quem teve cabeça para as ir ver... Segunda feira, no entanto, tudo estava igual ao "antes"... A terrinha deixou de parecer cidade, os rostos que se viam eram os mesmos de sempre,... enfim, a rotina voltou ao normal...

Este ano aproveitei melhor o Imago que no ano anterior! Vi mais filmes, foi mais calmo... Devo dizer que não vi nenhuma sessão da competição internacional... Não gosto de curtas, acho-as interessantes para que jovens realizadores aprendam a fazer cinema, tão só... De resto, contar uma história em 5, 10, 15 ou 20 minutos parece-me uma tarefa irrealizável, restando apenas tempo e espaço para desenvolver uma ideia única...

Tenho pena de não ter ido ver "Inland Empire" no sábado, mas às três da tarde, depois de uma noite como a de sexta, seria sempre muito difícil...

De resto, na quarta feira afastei-me da secção "Stop Making Sense" para ver um "FILME"! Uma revisita a "Odete" de João Pedro Rodrigues.

Se o cinema Português dos últimos anos tem ganho novos espaços e novos públicos, muito por culpa de filmes como "Alice", "Adriana", "A Costa dos Murmúrios" ou "Coisa Ruim", apenas para referir alguns nomes, "Odete" é mais um belo exemplo de como levar gente ao cinema para ver histórias diferentes, pondo a sílaba tónica na qualidade fílmica, sem descurar, no entanto, o sucesso comercial.

A história de "Odete", perdida num emaranhado de pulsões e disfunções, acaba por conduzir a uma ideia simples, a ideia da busca do amor, da carência afectiva do ser humano, das fraquezas que se sentem perante a "perda" de alguém, seja esse alguém vivo ou ainda por nascer...

É muito bonita a fotografia em "Odete", bem como a banda sonora, sempre bem encaixada na narrativa. Sabe bem a revisita a "Breakfast at Tiffany's", com "Moon River" a fazer as delícias de qualquer cinéfilo.

Um único senão relativo ao desempenho dos actores. Ana Cristina Oliveira está quase sempre bem, o mesmo não se podendo dizer de Nuno Gil que, desde início, exceptuando raros momentos, encarna o personagem com doses excessivas de artificialidade...

Quinta feira vi o meu último filme desta edição do Imago. Voltei à secção "Stop Making Sense" para assistir à projecção de "Brava Dança", o documentário sobre os "Heróis do Mar".

Achei interessante o documentário, sobretudo por desvendar a história de uma banda com a qual cresci e sobre a qual pouco sabia... Lembro-me dos excêntricos Heróis do Mar e das suas incursões em programas de televisão da década de 80, lembro-me de "Amor" e "Paixão", mas não conhecia muito mais além disso...

Descobri uma banda com sérias preocupações estéticas e musicais, num Portugal fechado e "pequeno", talvez pequeno de mais para ideias tão arrojadas...

"Brava Dança" é mais um tributo à geração de 80 e à vontade de fazer muito onde existia muito pouco. Vale a pena ver e ouvir os "Heróis do Mar", lembrar o Portugal que tivémos e constatar os esforços que se fizeram para alcançar o Portugal de hoje!

Quarta-feira, Outubro 03, 2007

"Stop making sense"

Durante estes dias de Imago tenho aproveitado a secção "Stop making sense", com vários documentários a rodar no "Delta open space" e direito a entrada gratuita.
Na segunda feira vi o filme "Glastonbury" de Julien Temple. O filme é um documentário acerca do festival sobejamente conhecido no Reino Unido e por esse mundo fora. Cruzam-se imagens dos primeiros anos do festival com outras mais recentes, na tentativa de explorar aquilo que, tendo começado como um acontecimento "hippie", gradualmente se foi transformando num fenómeno de massas, com todas as vicissitudes comerciais que, a isso, estão adstritas.

De imediato estabeleci um paralelismo entre este filme e outro que já tinha visto há algum tempo, "Woodstock, 3 days of peace & music", realizado por Michael Wadleigh em 1970. Desse paralelismo resulta uma apreciação aplicável a ambos: São filmes chatos, repetitivos, de enredo circular... Uma hora de cortes e a coisa até poderia ser agradável e evitar o bocejo...

Ontem voltei ao "Delta open space" para ver "American Hardcore The History of American Punk Rock 1980-1986". Apesar de não me rever no fenómeno descrito no documentário, devo dizer que foi o melhor que vi até agora neste Imago 2007.
O filme conta a história do "hardcore" americano, das suas raízes, dos seus fundamentos... Com uma estrutura documental, aborda-se a América do recém eleito Regan, uma América voltada para um passado superficial, apostada em retornar a moldes hegemónicos dos anos 50, cheia de futilidades e homogeneizada por ideias nacionalistas e conservadoras. Neste clima de amorfismo, surgem uma série de indivíduos verdadeiramente anarcas e intransigentes, para os quais as regras não existiam, vivendo sem objectivos muito claros, a não ser a assunção de um grito de revolta, contra tudo e contra todos...

O resultado é a criação de um movimento baseado, pura e simplesmente, na adrenalina! Os "punk rockers" americanos detestavam os Sex Pistols e tudo o que tivesse origem em atitudes, para eles, decadentes. Apelidavam Sid Vicious de "junkie" e perconizavam um estilo de vida "straight edge", com abstinência de drogas, alcóol e sexo casual, apimentado, aqui e ali, com laivos de violência gratuita...

Apesar de ser muito difícil a qualquer pessoa do mundo de hoje identificar-se com estes valores, é sempre interessante conhecer a história de um movimento deste género, bem como as causas que o originaram. Por estas razões, "American Hardcore" é um filme a não perder para qualquer pessoa que se interesse por música e pelo conhecimento de fenómenos "underground".

Domingo, Setembro 30, 2007

Mais uma vez..., o IMAGO!

Começou ontem o Imago, festival multidisciplinar de cinema e música que vai trazendo ar fresco à primeira semana de Outubro na cidade do Fundão. É fenomenal como se pode organizar, numa cidade de província, um evento que não ficaria nada mal se fosse feito numa qualquer capital europeia. Desde já os meus parabéns aos organizadores!

O festival não foge aos seus moldes habituais, caracterizados por inúmeros filmes e curtas em rodagem permanente, bem como alguns dj set's, live acts e concertos para ouvir pela noite dentro. Novidade, apenas o facto de a Moagem estar, nesta edição do Imago, a funcionar a 100%, dotando o festival de mais e melhores infraestruturas.

Este ano a minha disponibilidade noctívaga não é a mesma de anos anteriores, facto pelo qual me decidi a aproveitar os filmes, deixando a música para o último fim de semana.

Ontem, uma vez que não gosto de cerimónias de abertura e, especialmente, fujo a sete pés de qualquer mostra cinematográfica que tenha o nome de Andy Warhol associado, decidi ver o filme "Loud Quiet Loud", um documentário sobre os Pixies.

Dizer, em primeiro lugar, que os Pixies são, acima de tudo, uma banda muito especial para qualquer amante da música alternativa. Não falo de qualidade musical, mas sim de uma ambiência adolescente que, para quem viveu certas e determinadas coisas, será um lugar comum até ao fim da vida!
O documentário em si é fraco, devo dizê-lo... Como o título o "poderia" sugerir, centra-se na ideia de uma banda que nasceu, morreu e voltou a renascer. Neste âmbito, todo o enredo gira à volta de um conceito comercial, o de vender a imagem dos Pixies como produto do passado, projectando-a no presente e no futuro e abrindo portas para um possível novo álbum.
É, no entanto, um documento essencial para alguém que goste dos Pixies. Mostra-nos os Pixies de agora, "gordos e feios", anteriormente destruídos pelo alcóol e pelas drogas, tentando um caminho na sobriedade, com família, com filhos, com projectos futuros... Esta ideia de que a indústria musical cria fenómenos e depois os destrói não é nova... Ainda há pouco tempo li uma entrevista de Jonh Lydon dos Sex Pistols, em que o mesmo dizia ter sido isso que aconteceu a Sid Vicious...

De resto, "Loud Quiet Loud" é o pretexto ideal para ouvir e cantarolar mentalmente "Hey", "Monkey gone to heaven", "Gouge away" ou "Where is my mind", entre muitos outros temas! Só por isso já terá valido a pena este primeiro dia de Imago.

Terça-feira, Setembro 04, 2007

Descubram-se as diferenças...



Descobri, na fnac, estas duas novas edições atribuídas a Ingmar Bergman, às quais se juntam outros dois títulos, cujo nome não me recordo agora.
De imediato comprei os dois filmes, não tendo adquirido os restantes por défice orçamental (típico deste período do ano...).
Apenas um senão no que à edição diz respeito...
Enquanto que "Segredos de mulheres" e os restantes dois filmes desta colecção são realmente realizados e escritos por Bergman, no que toca a "Eva" apenas o argumento é do "filho do pastor protestante", sendo que a realização é de um tal de Gustaf Molander (facto descoberto com a leitura dos créditos na contracapa do dvd e cujas letras medem cerca de um milímetro de altura...), até então desconhecido para mim...
É triste que se tente vender gato por lebre... À semelhança do que por aí acontece vezes sem conta (recorde-se o caso de "Hostel" que, apesar de apenas ter sido produzido por Tarantino, foi descaradamente colado à sua imagem), desta vez é com a obra de Bergman que se vai brincado... Não me admiraria nada que "The best intentions", filme premiado com a palma de ouro em cannes, realizado pelo aclamado Bille August e cujo argumento é também da autoria de Bergman, viesse a sair numa qualquer edição dedicada ao cinema de Ingmar...
Fiquem prevenidos... Não façam como eu, quando comprarem lebre vejam se não vos dão gato...

Segunda-feira, Agosto 06, 2007

Comícios festa!

Deparei-me há pouco com este vídeo, que ainda não conhecia, e cujo desiderato terei que, a breve prazo, averiguar...
De qualquer das formas deixo-o para que o possam ver. Afinal de contas, a criatividade do amigo Fiúza é sempre de louvar!
Comícios festa?!? Vem aí alguma revolução? eheh! Venha ela!

Quarta-feira, Agosto 01, 2007

Antonioni

E vai mais outro, para infelicidade dos cinéfilos...

Li uma vez uma entrevista de Antonioni em que o mesmo dizia ter escolhido a profissão de realizador de cinema para ganhar muito dinheiro e ter uma vida agradável. Ora ainda bem que a escolheu e ainda bem que ganhou menos dinheiro do que aquele que inicialmente pensaria e ainda bem que nunca se vendeu aos estúdios, mesmo na incursão pelo cinema americano...

Já falava o poeta daqueles que se vão, da lei da morte, libertando...

Antonioni é um desses!

Terça-feira, Julho 31, 2007

Repasto de Verão interrompido pela morte de alguém que é eterno...

Poucas coisas poderiam interromper o período sabático que decretei a mim mesmo relativamente a este blog... O Verão continua aí, dilacerando qualquer tentativa de construção intelectual, fruto de um calor insustentável...

Morreu Ingmar Bergman, dizia ontem o rodapé do telejornal... Fiquei triste, muito triste...












O primeiro filme que vi deste realizador foi "Fanny and Alexander" e a partir daí não mais parei, apenas me tendo escapado uma ou outra obra, cuja possibilidade de visionamento é extremamente difícil...

Bergman é o cineasta das questões últimas, muito diferente de qualquer outro realizador da sua gerãção. O seu cinema não é a "arte que está em voga", não é a criação de ideias novas e impertinentes, não é a explanação de temas subversivos... Os seus filmes são capítulos de um tratado filosófico ao qual dedicou a vida e a carreira! Seja a velhice, sejam as relações entre pais e filhos, seja a morte (que tanto o perturbava), seja a religião, o medo, ou uma peculiar visão das mulheres, em Bergman chegamos sempre ao fundo (possível) das questões...

Ingmar Bergman era o "filho do pastor prostestante", um homem criado num ambiente de dogmatismo religioso, do qual sempre teve dificuldade em se libertar. Talvez por isso o seu cinema não tenha sido tão "contemporâneo" como o dos seus pares (excepcionando-se "Persona" e os primeiros instantes de "Morangos Silvestres"). Ainda assim, a actualidade de Bergman é premente e a sua obra intemporal!

Do ponto de vista, estritamente cinematográfico, Bergman não fica atrás de nenhum realizador contemporâneo, antes pelo contrário! Os seus planos são, via de regra, longos, acompanhados de uma, clássica, montagem lenta, cheia de travellings e planos sequência. A pefeição na "mise en scène" é admirável! (não me lembro de ver um único plano de Bergman desequilibrado, ainda que o plano durasse 5 minutos e fosse percorrendo vários espaços...) A fotografia era sempre magnífica, com um aproveitamento invulgar da luz! Verdade seja dita, a colaboração do, também falecido há pouco tempo, Sven Nykvist, em muito ajudou a obra de Bergman, mas nenhum génio existe por si só...

Haverá muitos realizadores que têm uma ou duas obras primas, um ou outro filme mais marcante. Em Bergman é difícil encontrar obras primas, até porque todos os seus filmes marcam de certa forma...

Temos o Bergman de "Mónica e o desejo", da análise da mulher sob o ponto de vista masculino, com as suas fraquezas e futilidades; o Bergman de "O Sétimo Selo", com a exploração da morte nos seus mais variados quadrantes; o Bergman de "Lágrimas e Suspiros" e aquela "pietá" de uma intensidade atroz; o Bergman de "Cenas da Vida Conjugal" e o maior tratado sociológico sobre as relações contemporâneas; o Bergman de "A Vida das Marionetas" e do submundo da psique; o Bergman de "O Silêncio", de "Em Busca da Verdade", de "Skammen", de "Sonata de Outono", de "A Fonte da Virgem", O Ingmar Bergman de "Saraband"!

Lembro-me, por exemplo, de ver "Em Busca da Verdade" na videoteca de Lisboa, há três ou quatro anos... Fui com o meu amigo Pedro, neste blog cognominado "Peter Killer". Ficámos numa televisão pavorosa, com aqueles fones horríveis que parecem esfaquear os tímpanos a cada segundo que passa do filme e com um "caroxo" no televisor do lado a rir à gargalhada com um filme americanóide de comédia parva. E nem assim..., nem assim conseguimos desviar a atenção do filme por um minuto que fosse...

O último filme de Ingmar Bergman que vi no cinema foi o portentoso "Saraband"! Recordo-me de sair da sala do Alvaláxia num estado de perturbação atroz, incapaz de dizer uma única palavra aos amigos que me acompanharam e incapazes, também eles, de qualquer tipo de comunicação nos minutos que se sucederam ao final do filme... Penso que, em "Saraband", Bergman fecha a sua obra de uma forma singular... Cada capítulo do filme é uma abordagem de um tema característico do seu pensamento e do seu legado, cada pedaço de imagem é uma retrospectiva de todos os assuntos que marcaram a sua carreira... Está de parabéns Ingmar, por ter conseguido finalizar a sua obra com chave de ouro!

Durante esta semana vou ver um dos últimos filmes que me escaparam na obra de Bergman, "A Hora do Lobo", e tentar descolar os olhos do ecrã, a final do filme, com aquela sensação catártica à qual é impossível escapar sempre que se roda um filme deste realizador.

É isto que fica da obra de Ingmar, a intensidade insuperável dos seus filmes, a actualidade invulgar dos seus temas, e o sentimento de perturbação e psicanálise que percorre a alma de quem quer que o visione!

Muito obrigado!